A literatura cabo-verdiana estabeleceu um importante diálogo com o Modernismo brasileiro, tanto o dos anos 20 quanto o de 30.
Entre os autores que foram lidos nas ilhas, destacam-se Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queirós, Ribeiro Couto e Manuel Bandeira – este último acabou por se transformar em uma espécie de patrimônio cultural cab0-verdiano a partir principalmente de seu poema Vou-me embora pra Pasárgada:
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
É Osvaldo Alcântara (pseudônimo poético de Baltasar Lopes) quem inicia a série do pasargadismo cabo-verdiano:
Itinerário de Pasárgada
Saudade fina de Pasárgada…
Em Pasárgada eu saberia
onde é que Deus tinha depositado
o meu destino…
E na altura em que tudo morre…
(cavalinhos de Nosso Senhor correm no céu;
a vizinha acalenta o sono do filho rezingão;
Tói Mulato foge a bordo de um vapor;
o comerciante tirou a menina de casa;
os mocinhos de minha rua cantam:
Indo eu, indo eu
a caminho de Viseu…)
Na hora em que tudo morre,
esta saudade fina de Pasárgada
é um veneno gostoso dentro do meu coração.
O pasargadismo de Osvaldo Alcântara será entendido como evasionista e escapista, e encontrará críticos: por retratar o homem cabo-verdiano sem apontar soluções para os seus problemas.
Para o escritor e estudioso Manuel Ferreira, no entanto, o pasargadismo deve ser visto como:
“[…] desejo manifestado da fuga à degradada situação colonial que encarcerava o horizonte à juventude pensante e interrogadora. Era um protesto. Um desdém. Não é de mais dizer: era a fuga à erosão colonial, mas não era voltar as costas à cabo-verdianidade.”
Seja como for, os autores da geração seguinte, agrupados em torno da revista Certeza, de 1944, recusarão o dilema ir/ficar, num posicionamento mais assertivo e de engajamento sócio-político mais intenso, como podemos ver nesses versos de Ovídio Martins:
ANTI-EVASÃO
Pedirei
Suplicarei
Chorarei
Não vou para Pasárgada
Atirar-me-ei ao chão
E prenderei nas mãos convulsas
Ervas e pedras de sangue
Não vou para Pasárgada
Gritarei
Berrarei
Matarei
Não vou para Pasárgada
O estatuto dado a Pasárgada nesse caso é diferente: espaço renunciado, abortado dos anseios, renegado como fantasia luxuosa. A escolha do eu-lírico no poema de Ovídio Martins é fincar os pés na terra natal, numa postura ativista.
Saindo da temática do pasargadismo, encontramos outra expressiva manifestação de interesse pelo Brasil neste poema de Jorge Barbosa, umas das mais generosas demonstrações de carinho pelo nosso país:
Você, Brasil
Eu gosto de você, Brasil,
porque você é parecido com a minha terra.
Eu bem sei que você é um mundão
e que a minha terra são
dez ilhas perdidas no Atlântico,
sem nenhuma importância no mapa.
Eu já ouvi falar de suas cidades:
A maravilha do Rio de Janeiro,
São Paulo dinâmico, Pernambuco, Bahia de Todos-os-Santos.
Ao passo que as daqui
Não passam de três pequenas cidades.
Eu sei tudo isso perfeitamente bem,
mas Você é parecido com a minha terra.
E o seu povo que se parece com o meu,
que todos eles vieram de escravos
com o cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.
E o seu falar português que se parece com o nosso falar,
ambos cheios de um sotaque vagaroso,
de sílabas pisadas na ponta da língua,
de alongamentos timbrados nos lábios
e de expressões terníssimas e desconcertantes.
É a alma da nossa gente humilde que reflete
A alma de sua gente simples,
Ambas cristãs e supersticiosas,
Sentindo ainda saudades antigas
dos serões africanos,
compreendendo uma poesia natural,
que ninguém lhes disse,
e sabendo uma filosofia sem erudição,
que ninguém lhes ensinou.
E gosto dos seus sambas, Brasil, das suas batucadas.
dos seus cateretês, das suas todas de negros,
caiu também no gosto da gente de cá,
que os canta dança e sente,
com o mesmo entusiasmo
e com o mesmo desalinho também…
As nossas mornas, as nossas polcas, os nossos cantares,
fazem lembrar as suas músicas,
com igual simplicidade e igual emoção.
Você, Brasil, é parecido com a minha terra,
as secas do Ceará são as nossas estiagens,
com a mesma intensidade de dramas e renúncias.
Mas há no entanto uma diferença:
é que os seus retirantes
têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,
ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem
porque seria para se afogarem no mar…
Nós também temos a nossa cachaça,
O grog de cana que é bebida rija.
Temos também os nossos tocadores de violão
E sem eles não havia bailes de jeito.
Conhecem na perfeição todos os tons
e causam sucesso nas serenatas,
feitas de propósito para despertar as moças
que ficam na cama a dormir nas noites de lua cheia.
Temos também o nosso café da ilha do Fogo
que é pena ser pouco,
mas — você não fica zangado — é melhor do que o seu.
Eu gosto, de Você, Brasil.
Você é parecido com a minha terra.
O que é é tudo e à grande
E tudo aqui é em ponto mais pequeno…
Eu desejava ir-lhe fazer uma visita
mas isso é coisa impossível.
Eu gostava de ver de perto as coisas
espantosas que todos me contam
de Você,
de assistir aos sambas nos morros,
de esta cidadezinha do interior
que Ribeiro Couto descobriu num dia de muita ternura,
de me deixar arrastar na Praça Onze
na terça-feira de Carnaval.
Eu gostava de ver de perto um lugar no Sertão,
de apertar a cintura de uma cabocla — Você deixa? —
e rolar com ela um maxixe requebrado.
Eu gostava enfim de o conhecer de mais perto
e você veria como é que eu sou bom camarada
Havia então de botar uma fala
ao poeta Manuel Bandeira
de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima
para ver como é que a poesia receitava
este meu fígado tropical bastante cansado.
Havia de falar como Você
Com um i no si
— “si faz favor —
de trocar sempre os pronomes para antes dos verbos
— “mi dá um cigarro!”.
Mas tudo isso são coisas impossíveis, — Você sabe?
Impossíveis.
De acordo com Simone Caputo Gomes, essa aproximação de Cabo Verde com a literatura brasileira pode ser explicada assim:
“Ao assumir a afinidade com o Brasil e sua cultura mestiça e autônoma, os escritores […] evidenciaram a sua determinação em refletir-se em (e por meio de) outros espelhos, mais próximos porque detentores de um itinerário histórico igualmente colonizado.”
Bem, as leituras lusófonas prosseguem por aqui. Logo mais haverá post para as leituras de férias.
