Querer a vida como um grande rascunho acontece desde a Idade Média, quando os papiros eram apagados para reaproveitamento do material Sibélia Zanon* Desde que existimos, queremos apagar coisas. Apagar a luz branca, apagar o zunido do mosquito, apagar o desencontro, apagar a voz da mente, apagar um girassol que não murcha. Desço lá das alturas do antigo prédio do Banespa. Pelos andares, visito a exposição que reflete a arte nos tempos da Independência do Brasil. A escravidão grita em diversos tons nas vozes das quase 5 milhões de pessoas trazidas da África e dos mais de 3 milhões de indígenas escravizados pelos colonizadores. Fico surda. Chego no térreo, onde a vida parece um grande rascunho, mas não dá para apagar a vista. Olho o mundo de baixo, da mesma altura das pessoas que moram nas barracas instaladas na Praça da Sé e comem as quentinhas nos degraus frios da catedral. Os papiros e os órgãos emudecem pelos anos. O da Catedral da Sé completou 20 anos sem uso. Seus 10 mil tubos calaram de poeira e cimento. Foto: Reprodução/Monique Renne Querer a vida como um grande rascunho acontece desde a Idade Média, quando os papiros eram apagados para reaproveitamento do material. O palimpsesto é testemunho de que o pergaminho é caro e as memórias também. Os papiros e os órgãos emudecem pelos anos. O da Catedral da Sé completou 20 anos sem uso. Seus 10 mil tubos calaram de poeira e cimento. Já o órgão da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Embu das Artes, construída por indígenas sob a orientação de jesuítas no século XVI, é provavelmente o mais antigo do estado de São Paulo e o segundo mais antigo do Brasil. Talvez por isso tenha perdido a voz faz tempo. Às vezes, é melhor calar. Tenho infinitos arquivos no computador com um nome qualquer e a continuação “rasc”. Escritos autoproclamados provisórios, assim como a memória. A borracha mora na margem dos meus feitos. Memórias de família também sofrem apagão. Empresto dos meus pais qualquer recordação relacionada aos meus avôs: o quanto eles eram musicais ou trabalhadores ou generosos ou teimosos. Nasci atrasada para elaborar minhas próprias lembranças. Escritos autoproclamados provisórios, assim como a memória. A borracha mora na margem dos meus feitos. Foto: Reprodução. Dentro do universo da borracha, muitas espécies já foram extintas. Destruir parece tão fácil: um “descobrimento”, uma escravidão, uma Revolução Verde que apaga a semente… Como será reconstruir? Acordo no dia de amanhã como se o pergaminho estivesse raspado de letras. Amanhã posso deletar um arquivo provisório. Amanhã espero o órgão tocar. Mas… a pele não é um palimpsesto e nenhuma chibatada é muda. A avidez de qualquer conquistador é não saber ver a mesa cheia e querer sempre mais. Amanhã, quero ver a mesa cheia Sibélia Zanon* é jornalista e escritora, autora de Espiando pela fresta e Casca Vazia. .