ilustração de Ligia Zilbersztejn

André Cáceres 

É jornalista, escritor, autor de Nebulosa (2021) 

Eu me lembro da era da inocência como se fosse ontem. De brincar em meio aos bancos estofados qual arbustos de um bosque, correr de um vagão para o outro tentando manter fixa na visão uma mesma árvore lá fora, sempre falhando em acompanhar o ritmo da paisagem externa que fluía apressada para trás. Nunca consegui alcançar a velocidade das colinas e das montanhas que rugiam, e a era da inocência, breve feito a primavera, teve seu fim quando descobri que éramos nós que avançávamos com voracidade, a natureza lá fora estava estática. 

Foi um olhar momentâneo que encerrou abruptamente a era da inocência, e talvez seja essa brusquidão que me faça recordá-la como se fosse ontem. Lembro-me do cheiro de queimado da carne defumada em meu prato de porcelana chinesa, ainda posso sentir o sabor cítrico do suco de laranja em minha boca imberbe e a maciez do couro de vaca contra minhas costas diminutas. A ocasião em si não era especial, mas meus pais, com seus trejeitos afetados e ares de superioridade, nunca precisaram de um motivo para jantar no vagão mais caro da locomotiva. A única diferença é que, daquela vez, eles me deixaram sentar na janela. Foi o seu erro. 

É curioso pensar que, se eu tivesse sentado no banco do corredor, provavelmente estaria agora saboreando um pernil na brasa ou uma tigela de caviar com meus pais, em vez de estar aqui tramando uma emboscada para eles. 

Pois quando eu estiquei o olhar através da janela, buscando o movimento irrefreável das colinas, avistei uma garota. Foi um momento fugaz de conexão entre minha curiosidade que lambeu sua figura miserável e o seu olhar espinhoso que me espetou fundo na alma. Eu levava à boca uma garfada de faisão; ela comia o resto da carcaça de algum animal sobre uma fogueira improvisada. O instante não durou mais que um átimo, mas vi claramente sua silhueta sentada na relva. Ela exibia pinturas tribais no corpo, olhos amendoados e cabelos revoltos que se misturavam ao negrume da noite. E o mais importante: embora tenha passado por mim como um raio, ela estava definitivamente parada. Foi então que eu entendi que quem se movia era eu. Eu e a locomotiva. Eu, a locomotiva e todos os glutões nela.

A percepção me atingiu como uma paulada na cabeça. Eu era apenas uma criança, havia nascido na enfermaria daquele trem e jamais me dera conta de que existia um mundo de verdade para além das janelas envidraçadas dos vagões de luxo. A partir do momento em que meu olhar cruzou com o daquela garota misteriosa, minha curiosidade infantil se aguçou. Eu queria saber mais sobre o mundo de dentro e o de fora. Sobre o funcionamento da locomotiva, suas engrenagens e segredos. Não tardou para que as explicações condescendentes de meu pai passassem a fazer pouco sentido e a não satisfazer minha sede por conhecimento. Passei a deixar de brincar com as outras crianças, tão abastadas e alienadas quanto eu, para explorar as entranhas do trem, os meandros da máquina. Os funcionários não passavam de robôs subservientes, nada revelavam. Os outros viajantes não sanavam minhas dúvidas, recusavam-se a dizer qual era o destino da locomotiva, a estação final.

Em uma das minhas expedições pelos vagões, decidi caminhar até onde fosse possível para a frente. Nunca havia ouvido relatos de que houvesse um fim. Passei horas e horas andando, o dia deu lugar à noite e meus pais certamente colocaram todos à minha procura. Então corri, buscando energias onde nem sabia que as tinha, e alcancei uma portinhola de madeira com maçaneta de ouro na extremidade de um dos carros. Olhei para trás e o trem se curvava à distância como uma cobra maliciosa se espreguiçando sobre os trilhos. Abri a porta e saí. 

O vento cortante paradoxalmente me tomou o fôlego de súbito. Pensei que não fosse possível respirar lá fora, mas consegui enfim retomar o controle dos pulmões e tornei a inspirar, sentindo o ar gelado do mundo ganhar os limites internos de meu corpo pela primeira vez. O cheiro de vida real era infausto, mas senti-me feliz. 

À minha frente, um espesso gancho metálico interligava as composições do trem à fornalha que lhe fornecia potência para seguir seu trajeto infindável. Equilibrei-me com dificuldade sobre o engate, vendo os trilhos passarem furiosamente sob meu corpo, e subi a escada na parede externa da fornalha. Quando enfim consegui me pôr de pé, quase voando pela ação do vento, ouvi a porta de madeira atrás de mim se abrir. Meu pai me chamava de volta para dentro, mas eu não conseguia tirar os olhos dos maquinistas, que alimentavam a fornalha com o corpo magro como o da garota que eu havia visto pela janela. 

Tentei alertar meu pai. Revelei que as pessoas que eu via lá fora eram o combustível da locomotiva. Ele não acreditou, disse que não havia gente fora do trem, que eu havia visto borrões de árvores e os tomado por seres humanos. Tentei alertar minha mãe. Ela desconversou, falou que aquilo não havia passado de um sonho atribulado. O trem é um círculo perfeito, não há começo nem fim, ela garantiu.

Depois daquele dia, o faisão tinha gosto de sangue seco, o couro dos assentos parecia pele humana, o ar era ominoso, irrespirável. A paisagem lá fora era um convite. A era da inocência já havia acabado, mas eu tive de dissimular minha ingenuidade por algum tempo até criar coragem para fugir. Talvez meus pais nem tenham sido pegos de surpresa. Talvez já estivessem esperando. Eu via no olhar frio e distante que eles me lançavam de vez em quando. Não deixei bilhetes nem olhei para trás.

Passei fome nos primeiros dias do lado de fora. Enquanto tentava cozinhar um tatu numa fogueira capenga, olhei pela janela do vagão e percebi um garotinho ainda mais novo que eu me observando assustado antes de ser censurado pelos pais para não olhar para fora.

Meu primeiro contato com as pessoas do mundo externo não foi de todo pacífico, mas quando elas compreenderam que eu havia abandonado o trem por vontade própria, me acolheram sem ressalvas. Aquele grupo me ensinou a pescar, a identificar plantas venenosas, a fugir dos drones coletores que levavam pessoas para alimentar a fornalha da locomotiva. Mas eles também aprenderam uma coisa comigo, algo que eles não sabiam e que seria muito importante: eles aprenderam a se rebelar.

Não parece que se passaram tantos anos desde a minha fuga assustada naquela noite sem estrelas, no ocaso da era da inocência. Busquei em vão a garota que vi pela janela, mas sua figura nunca passou de um fantasma a me assombrar diretamente do passado. Sua silhueta me deu forças para o que estou prestes a fazer. Foi por ela que, mês após mês, planejei nossa revolta. E aqui estou agora à espreita sobre um galho retorcido de árvore, auscultando a escuridão noturna à espera do rugir da locomotiva.