foto/ Biblioteca Pública do Paraná

Nayara Capelo, colaboração para Fina

Em terras pandêmicas, quem tem cidade é rei. Apesar da contínua retomada comercial e educacional, as metrópoles brasileiras estão distantes de cenas comuns um ano atrás: dos bloquinhos de Carnaval ao metrô abarrotado, a cidade personifica-se pela ausência. Isolados socialmente, não deixamos de relembrá-la e projetá-la, ao passo que no “novo normal” interagir com ela é adverso e quiçá frustrante. Ausente e presente na vida de seus moradores, o centro urbano é palco, ator e plateia em A cidade, o inquisidor e os ordinários, romance por Carlos de Brito e Mello. 

Publicado há oito anos pela Companhia das Letras, o livro sobreviveu a 2013 e expande seus horizontes interpretativos desde então. A história brasileira contemporânea evidencia a grandiosidade da obra, mas não a cria: Brito e Mello elabora um título de patente qualidade estético-histórica ao operar ficcionalmente universal e local, temporal e atemporal, bem como, no leitor pós-2020, ausência e presença.

“A cidade, o inquisidor e os ordinários” é uma farsa moderna; seu ambiente e suas personagens são abstrações, construídas através de uma redução dos elementos reais às suas características fundamentais. Passa-se em uma metrópole genérica (o autor é belo-horizontino, mas o leitor que habita centros urbanos facilmente se identifica), povoada por Andarilhos, Vizinhas, Passantes, impostores, políticos e um “Tribunal do Santo Ofício”. O Decoroso é rígido em seus costumes, marcados pelo que considera justo e adequado a homens como ele: monta esplêndidas mesas de café-da-manhã, mas não as come; vai ao alfaiate e se recusa a deixar suas medidas, pois são as mesmas que sempre teve; anda empertigado em meio à multidão, pressupondo conhecimento anterior de todos a seu respeito…

E inicia uma inquisição que dependura Bobos em antenas parabólicas, sacadas ou beirais com o auxílio subserviente do Apregoador e seu irmão Olheirento. “A bobeira é uma abnormidade que tem seis filhas: evitarão social, apatia, tristeza, boçalidade, desdém e abstinência. […] Eu puno homens bobos que se tornaram descorteses consigo; que, na descortesia, consomem-se; que, na consumpção, maculam esta sociedade; que, na mácula, rejeitam o bem viver. E o bem viver é tudo o que eu acho que seja bem e tudo o que eu acho que seja viver.”, escreve Brito e Mello.

Através dessas personagens Carlos de Brito e Mello desenvolve, por uma ausência presente e uma presença ausente, temas provindos dos pares dialéticos local-universal e temporal-atemporal. Em outras palavras, implícita ou explicitamente o autor ficcionaliza questões como o comportamento humano, a trajetória política brasileira, os sistemas de vigilância e punição sociais e o portentoso debate filosófico sobre moral e ética. 470 páginas podem surpreender, mas vistas sob essa perspectiva são consideravelmente sintéticas.

O julgamento alheio percorre a trajetória comportamental da humanidade tanto em sua esfera pública quanto privada; o dilema ético-moral decorrente, entretanto, reside na transposição dos deveres jurídicos aos indivíduos comuns – como no caso do Decoroso, que cria sua própria estrutura inquisitorial de perseguição e punição. Brito e Mello foi sagaz, e mesmo premonitório, na criação de tal personagem: após seu livro, fatos históricos como o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a prisão sem provas do ex-presidente Inácio Lula da Silva e a proteção de Jair Bolsonaro aos seus filhos são em essência idênticos às atitudes do inquisidor: sobreposição dos valores pessoais ao públicos, julgamentos morais, uso de instituições em benefício próprio…

“A cidade, o inquisidor e os ordinários” também dialoga em primeiro plano com a tradição inquisitorial posta em vigor pela Igreja Católica Romana. As aproximações são múltiplas: o Decoroso se declara inquisidor; o Olheirento é responsável por vigiar os seres a punir; o Apregoador encarrega-se da construção retórica da perseguição; o Arrombador invade as casas dos condenados para possibilitar seus julgamentos; o sistema de vigilância, denúncia e punição coletiva é frequente por parte das Vizinhas, do Bem-Composto, do Candidato e do Prestável; uma mulher é perseguida pela manifestação de seus pensamentos (a Impostora, única e principal opositora do Decoroso na Cidade). 

Carlos de Brito e Mello realizou um considerável feito literário ao expressar a lógica arbitrária, a irregularidade institucional e a moralidade excessiva dos tempos correntes. É secular o mascaramento da moral com a ética, de fato; os avanços materiais, científicos e tecnológicos não deveriam ultrapassá-lo, contudo? A substituição de princípios éticos por valores morais é grave, como observou-se com pesar no Brasil e em todos os países que recentemente negligenciaram a saúde pública em função das certezas pessoais de seus dirigentes políticos.

O leitor encontrará em suas mãos um exemplar atualíssimo. Os momentos humorísticos em meio a assertivas cirúrgicas em “A cidade, o inquisidor e os ordinários” propiciam uma leitura não agridoce, mas adstringente: uma pausa entre os itens da farsa é bem-vinda, permitindo ao leitor olhar ao redor e engolir em seco, tentando ruminar o que se enuncia entre as presenças e ausências da obra, do mundo e de si. 

Não que sirva de consolo, mas “a maior parte da vida se parece com a farsa. Temos pouca ou nenhuma epopeia”. Sem heróis, sem virtudes, sem cidade… Ordinários!

TÍTULO DO LIVRO: A cidade, o inquisidor e os ordinários

AUTOR: Carlos de Brito e Mello

EDITORA: Companhia das Letras

ANO DE PUBLICAÇÃO: 2013