Por José Leonardo Ribeiro Nascimento
“Toda palavra proferida ao redor da morte comporta, pelo menos, um fonema enlutado, e as perturbações de fala são formas pelas quais
morrer obseda a língua”
Carlos de Brito e Mello é um escritor meio louco e muito estranho. Já havia comentado algo similar quando resenhei A Cidade, o Inquisidor e os Ordinários (aqui), um livro mais ambicioso que este aqui. O que não significa, deixo claro, que A passagem tensa dos corpos seja menos estranho.
O que conta o livro?
Notícias de morte pelo interior de Minas Gerais. Na cidade tal, fulano se envenenou, na outra, beltrano morreu afogado, e assim vai. O narrador visita cada cidade em busca de notícias sobre a passagem tensa dos corpos, registrando-as oralmente.
Qual o “problema” que move a narrativa?
Numa determinada cidade, um homem é envenenado. Ele presencia a cena. Aquele deveria ser seu último relato. Ocorre que a esposa e os dois filhos do morto/assassinado agem de forma estranhíssima. Amarram-no à cadeira na sala de jantar e continuam sua rotina como se ele não tivesse morrido. A mãe e a filha planejam um casamento urgente, antes que haja noivo. E o narrador fica inquieto, já que sua missão só é considerada cumprida quando oficialmente o morto é considerado morto, ou seja, quando ele é enterrado.
Quem conta o livro?
O narrador é uma espécie de morto/fantasma. Ele não tem corpo, só uma língua, com a qual narra as mortes e lambe restos de alimentos (É assim que ele sobrevive! Não pode comer nada, apenas lambe o que os outros deixaram, incluindo até mesmo uma cachacinha no chão de um boteco jogada para o santo!). Sua fixação oral é justificável (afinal, enquanto corpo, ele é uma língua) e rende momentos impagáveis.
Ao mesmo tempo em ele narra as mortes com indiferença, quando é confrontado com a situação estranha da família que não quer enterrar seu morto, ele começa a julgá-los com severidade, especialmente o filho que teima em não sair do quarto. Neste momento, sua voz torna-se bastante parecida com a do Decoroso, de A Cidade, o Inquisidor e os Ordinários.
“Até o momento, não conseguir abandonar este estado
entre desaparecer completamente ou tornar-me um homem inteiro e visível
lugar intermediário onde estou, próximo dos vivos e dos mortos, a marcar com a língua a passagem tensa dos corpos. Talvez eu venha a concluir, um dia, que me acostumei a habitar
entre, e que o sofrimento que disso decorre é apenas uma forma incomum de prazer.”
Enquanto tenta resolver a situação do morto, o narrador vai nos contando sobre outras mortes. É sua profissão, sua obsessão. Vamos aos poucos aprendendo mais sobre ele e sobre o que o motiva – o que não reduz a estranheza da narrativa.
Ao final do livro – é curto, a leitura é rápida –, mais do que “Que livro bom!”, o que me vinha era “Que livro estranho!”. O livro é ruim? Não, longe disso. É bem escrito, o ritmo é excelente, a história é divertida, sem ser rasa (afinal, é um livro sobre a morte), o narrador é uma figura interessante. Faltou algo para que funcionasse melhor comigo, só isso.
“Não tenho glande, mas
verbos para o intumescimento e para a ejaculação. Caminho porque afirmo caminhar. Corro porque enuncio que corro. Vejo porque digo que vejo. Sou aquilo que anuncio ser, conquanto me falte consistência e certeza. Se tenho dúvida ou se me equivoco é porque a dúvida e o equívoco são também acontecimentos da linguagem.”
Um livro cujo narrador diz isso não pode ser ruim, pode?
Minha Avaliação:
3 estrelas em 5.
