O repúdio seria algo mais plausível neste momento do que um jantar de gala
Isabella Marzolla*, colaboração para Fina
Na quarta-feira passada (07/04), Bolsonaro jantou com nomes importantes da elite empresarial para restaurar sua relação com a classe, contrariando o recente movimento de uma parte dos economistas, banqueiros e empresários que tem se mostrado irritado com a má administração do governo no combate à pandemia.
Na casa do empresário do setor de segurança Washington Cinel, jantaram o Presidente da República, o líder do governo na Câmara, deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), o Ministro da Secretária-geral da Presidência da República Onyx Lorenzoni, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, o Ministro das Comunicações, Fabio Faria e o Ministro da Economia Paulo Guedes, à exceção de Marcelo Queiroga (Ministro da saúde) que também estava presente, todos ficaram sem máscara. Um compromisso como este é claro, imperdível durante o momento mais avassalador da pandemia no país: um jantar de homens extremamente ricos e poderosos que podem até terem se vacinado já.
Dos oitenta convidados na pequena aglomeração de Cinel, estavam presentes André Esteves (BTG), Candido Pinheiro (Hapvida), Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), Carlos Sanchez (EMS), Rubens Menin (MRV), João Apolinaro (Polishop), Alberto Saraiva (Habib’s), Flavio Rocha (Guararapes), João Camargo (grupo Alpha de comunicação), João Carlos Saad (Band), Alberto Leite (F5 Securities), Claudio Lottenberg (Hospital Albert Einstein), Felipe Nascimento (Mapfre), Paulo Skaf (Fiesp), Ricardo Faria (Granja Faria), Tutinha Carvalho (Jovem Pan), José Roberto Maciel (SBT), José Isaac Peres (Multiplan), David Safra (Banco Safra) e Rubens Ometto (Cosan), entre outros.
Não surpreende o fato destes empresários pressionarem o governo para a vacinação privada de suas empresas ou pela recuperação imediata da economia, independentemente disto poder levar a morte de alguns de seus funcionários. A prova disto foi Bolsonaro ter recebido salvas de aplausos quando terminava de discursar no jantar. Isso já é esperado do empresariado brasileiro, mas algo que me chamou a atenção foi assistir a uma propaganda do Bradesco, logo depois de ler a notícia sobre este jantar.
As propagandas das marcas que estes empresários administram passam na TV aberta ou a cabo, mostrando diversidade, inclusão, respeito ao diferente e campanhas de conscientização para um mundo melhor.
A campanha publicitária mais recente do Bradesco fala sobre o combate ao assédio contra as Inteligências Artificiais – sim, aparentemente isso existe – no caso, com a BIA, assistente virtual do banco. A propaganda é encenada por mulheres negras, pardas, asiáticas e uma senhora loira; representatividade e diversidade.
Óbvio que a intenção da mensagem transmitida é válida, bonita e necessária. As agências de publicidade contratadas pelo setor de marketing destas empresas são de primeira categoria – foi a Publicis Brasil que fez essa última do Bradesco – mas é no mínimo um paradoxo saber conhecimento de que os donos destas marcas, hoje reverberando pautas progressistas, apoiaram em 2018 um político que não demonstra o mínimo apreço pelos valores expostos nas publicidades. Bolsonaro provavelmente encararia com certo desprezo o mimimi de campanhas como esta.
Por mais pragmático que os empresários possam ser, eles se dispuseram a sentar em uma mesa com um presidente que prega “direitos humanos para humanos direitos” e que por muitos é considerado o pior presidente do Brasil desde a redemocratização. Se todas as empresas e marcas destes empresários fossem o que suas propagandas e slogans insinuam ser, o mundo seria verdadeiramente um lugar melhor e estes homens não estariam jantando com Bolsonaro um dia depois do País bater 4 mil mortes em 24 horas por coronavírus. O repúdio seria algo mais plausível neste momento do que um jantar de gala.
