Encontro das empresárias com Bolsonaro podia ter sido sobre equidade de gênero e busca por protagonismo feminino na luta contra a Covid-19 mas acabou sendo sobre propaganda bolsonarista

Isabella Marzolla*, colaboração para Fina

Na sexta-feira passada (30/04) cerca de 50 empresárias e executivas da indústria e de serviços almoçaram com o Presidente da República no Palácio Tangará, hotel de luxo em São Paulo. Entre os nomes de maior peso estão Dulce Pugliese, cofundadora da Amil; Janete Vaz, fundadora do laboratório Sabin; Stella Damha, sócia do grupo de construção civil Damha; Edna Onodera, fundadora da rede de franquias de estética Onodera; Marina Willisch, vice-presidente da General Motors; Cristiane Lacerda, diretora do Carrefour e Marly Parra, do Instituto Unidos pelo Brasil e ex-executiva da E&Y e GPA, entre outras.

O objetivo do almoço com Bolsonaro e sua comitiva contando com Flávia Arruda (Secretaria de Governo da Presidência), Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Tarcísio de Freitas (Ministro da Infraestrutura), Fábio Faria (Ministro da Comunicação), Ricardo Salles (Ministro do Meio Ambiente), Pedro Guimarães (Caixa), Gustavo Montezzano (BNDES) e alguns deputados era por uma causa nobre; A equidade de gênero no mercado de trabalho e a negociação na tomada de decisões importantes do empresariado feminino em conjunto ao Poder Público. Sem escantear pautas de comum interesse para os executivos como a reforma administrativa, tributária e as vacinas, claro. Mas afinal, como foi o almoço e o que foi pautado entre paredes? 

“O culpado por essa situação econômica que está acontecendo, de jeito nenhum é o Presidente. Inclusive, ele falou durante o discurso dele no almoço que é completamente contra o lockdown, eu também sou totalmente contra. A gente sabe que existe o tratamento precoce e ele não foi divulgado”  ” , diz coanfitriã do evento

A iniciativa e condução do encontro se deram pela gaúcha formada em Ciências Políticas e criada em família de oligarquia política, Karim Miskulin, presidente do Grupo Voto, empresa de mídia e de eventos de relacionamento fundada há 17 anos, com sede na capital paulista desde 2019. Mas o evento com Bolsonaro inicialmente aconteceria na casa da empresária e estilista, Vivian Kherlakian, que também é a casa de seu marido, o investidor Otávio Fakhoury, investigado no inquérito das fake news sob a suspeita de financiar disparos de mensagens e de atuar junto ao chamado “gabinete do ódio” do governo do Presidente Jair Bolsonaro, capitaneado por Carlos Bolsonaro.

Para desvendar o verdadeiro espírito do encontro, vale destacar um pouco a personalidade da anfitriã Miskulin e da “coanfitriã”, Kherlakian. A presidente do Grupo Voto, Karim Miskulin, se diz apaixonada por política e que – ressaltando a clássica personalidade empresarial de pragmatismo e fisiologia – “há governos que a gente se identifica mais, outros menos, mas nasci nisso e não me vejo fazendo outra coisa. (…) Já fui chamada de tucana, petista e bolsonarista”, contou à Folha.

Já a “coanfitriã” do almoço, a empresária e estilista Vivian – formada em moda pela Faculdade Santa Marcelina e administração de empresas pela FGV -, teve loja de roupas no Shopping Vila Olímpia e atualmente continua atendendo os clientes em seu ateliê de vestidos de noiva no Jardim Europa. Sua postura como fervorosa apoiadora do Presidente e de algumas narrativas do governo, fortemente disseminadas também em grupos bolsonaristas do Telegram, fez com que ela urgisse como uma das lideranças no encontro. 

As principais narrativas propagadas pelo governo e seus apoiadores e que foram pautadas no almoço com as empresárias são a repulsa ao lockdown, ser a favor do tratamento precoce contra o coronavírus, com o uso principalmente da cloroquina e ivermectina, da abertura total da economia e da explicação de que o governo federal repassa milhares de doses de vacinas que não são aplicadas na população porque os governadores são lentos e incompetentes ou fazem de propósito para prejudicar a gestão Bolsonaro.

Em entrevista ao programa Os Pingos nos Is, da rádio Jovem Pan, Vivian contou sobre a atmosfera do encontro. Começou falando que “o clima [do encontro] foi excelente. Quando o Presidente chegou todo mundo foi correndo para tirar foto, ele é muito querido pelas mulheres, todas afoitas para tirar fotos com ele. O clima era esse, foi muito legal, foi muito gostoso”, comentou. 

Sobre a pauta carro-chefe do encontro, equidade de gênero, Vivian afirmou que “não vejo que as mulheres tenham mais dificuldade de empreender do que os homens, especialmente agora, em que mais do que nunca aprendemos a trabalhar em casa. Eu vejo uma posição igual entre homens e mulheres, não vejo essa necessidade de discutir pautas sobre isso”.

Em seguida, esclarece que o encontro tinha outros objetivos, “é importante desse encontro, que as pessoas possam ver que o Presidente tem tudo a favor das mulheres. Isso ficou bem claro, era esse o objetivo. Quem estava lá realmente queria prestigiar ele”. Quando perguntada sobre como a pandemia afeta seus negócios, especialmente por ela ser dona de uma loja de vestidos de noiva, Vivian desconversa qualquer responsabilidade do chefe do Executivo: “o culpado por essa situação econômica que está acontecendo, de jeito nenhum é do Presidente. Inclusive, ele falou durante o discurso dele no almoço que ele é completamente contra o lockdown, eu também sou totalmente contra. A gente sabe que existe o tratamento precoce e ele não foi divulgado”, conclui.  

Mas voltemos à reunião. O almoço começou com um discurso da anfitriã, Karim Miskulin que pediu “união para avançar. (…) Avançar na economia, nas reformas sociais, na desburocratização da máquina pública”. Houve também a participação com perguntas ou ponderações de Dulce Pugliese, cofundadora da Amil e uma das mulheres mais ricas do país, Sandra Comodaro, do Voto Mulher e Marly Parra, do iHub e do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.

Na hora de falar a cofundadora da Amil disse que Bolsonaro poderia contar com o setor privado. “Tenho certeza de que falo por todos os meus colegas empresários, presentes e ausentes. Nós vamos continuar lutando pelo Brasil com que nós todos sonhamos”, disse. 

No mesmo dia que o Presidente e boa parte de seus ministros almoçam em temperatura amistosa e simpática com dezenas de empresárias e executivas para exaltar o tratamento precoce e contra medidas sanitárias na pandemia, o País bateu mais de 400.000 mortes por coronavírus, em grande medida subnotificadas. Este é o Brasil que nos foi prometido?

É jornalista e também colabora com o blog Inconsciente Coletivo.

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