Será difícil não se contagiar com o kuduro, pelo menos uma vez, neste espetáculo relatado no livro.

Rafaela Mancini, Especial para Fina

Se em um momento, alguém chegou a pensar que não seria possível colocar por escrito algo que fuja às palavras, é porque ainda não se deparou com Também os brancos sabem dançar, de Kalaf Epalanga. E não estamos falando da ligação entre a escrita e outras artes através de poema e poesia, tão conhecidos e aclamados por aproximar a música, por exemplo, ao ato de escrever. Quem ler esta obra de Kalaf estará sendo diretamente convidado a bailar. 


Não uma valsa, nem uma dança de salão “clássica”, embora momentos da narrativa em que dançamos em par, este é um contato intenso com o kuduro, também um gênero musical. O escritor e músico angolano Kalaf Epalanga, membro do Buraka Som Sistema, traz a linguagem do kuduro, envolvendo a produção musical, a arte de dançar, e os corpos que se contagiam e agitam, uma vez em contato com este ritmo, seja o incorporando, assistindo ou até mesmo lendo sobre ele.


As batidas do kuduro que tanto despertam movimentos físicos, além disso, trarão reflexões profundas sobre o seu contexto de surgimento na Angola, e como sua repercussão no mundo, principalmente na Europa, foi se estabelecendo e ainda hoje enfrenta uma trajetória muito longa e complicada para ganhar o reconhecimento que merece. As discussões sobre a dança e a música, obviamente, chegam às dimensões culturais e políticas que se estabeleceram entre os continentes.

Temas como a Europa e o financiamento de conflitos armados, ou Europa e imigração, são muito bem interpretados. O livro discute o colonialismo, racismo, a xenofobia e a violência vinda da indústria cultural, a partir da força que o kuduro tem ao desafiar um sistema impiedoso em um debate de corpos. Corpos que sabem muito bem como se movimentar, uma vez que através do kuduro descobriram diversas formas de ser e viver, contrapondo-se a uma ordem mundialmente estruturada. Diferentemente de um senso comum a partir do sucesso de “Danza Kuduro”, por Don Omar e Lucenzo, em 2012, o kuduro não se caracteriza por canções às quais atribuímos o valor próximo de um “pop” ou do “reggaeton” mais internacionais, como deste hit. 


Difícil seria responder o que ele realmente é, questão colocada diversas vezes no livro. Algo de novo acontece com o kuduro. Talvez pelo seu diálogo enorme com outros ritmos de raízes africanas, também colocados na obra, como o rap, o funk carioca, e mais especificamente com outras danças angolanas, como o semba e a kizomba. Complexo, plural, envolvente, o kuduro traz à tona o que chamamos de conexões. Surpreendente: é com toda essa complexidade que temos a escrita e a leitura deste livro. 


Dividida em 3 partes, a história principal se desenvolve de forma inesperada, com vozes que entram em contato com o kuduro de alguma forma. Não são somente as pernas que se cruzam, os relatos se misturam com a música, sendo ela do início ao fim das narrativas, o principal ponto em comum entre elas e capaz de as unirem. O toque é direto na primeira parte, mais objetivo e técnico, seguindo o ritmo do kuduro e sua trajetória desde Luanda até os grandes festivais de música eletrônica na Europa. A personagem principal (também chamada Kalaf) apresenta um relato específico que se intercala com a narrativa de seu passado, ambas movimentadas pela arte de fazer kuduro. 


Já a segunda parte se aproxima do estilo musical, porém nos tons predominantes da kizomba e do fado de Portugal. A história soa de forma extremamente sensual, ao mesmo tempo que sentimental, saudosista e melancólica, principais características de uma das tradições portuguesas. O leitor irá rodopiar no romance encantador que as palavras desta parte trazem. Enquanto que na terceira, o kuduro se apresenta de maneira mais indireta, remetendo o leitor à reflexão que o título do livro sugere.
A partir destes três principais e distintos pontos de vista, o registro do kuduro é o corpo de partida para escancarar os impactos do racismo no reconhecimento desse gênero, e como as pessoas se relacionam com a música no geral. Ou melhor, como se relacionam principalmente quando ela foi produzida por negros, quando ela se proclama originária de um país africano. Mas para além disso, o kuduro abre diversas possibilidades para apreciar e estudar o universo da música, ou de uma cultura em específico.


É mais que recomendada a leitura de Kalaf Epalanga, e a aproximação com sua obra no geral. Para quem se interessa fortemente pelo país de Angola ou por música internacional, esta é uma leitura obrigatória. A viagem por Também os brancos sabem dançar se torna ainda mais interessante quando acompanhada de uma playlist feita pelo próprio escritor, disponível no Spotify, ao escutar as canções do kuduro e os artistas citados no texto. Visualizar o kuduro em vídeos no Youtube também é uma atividade que irá facilitar e aprimorar a experiência com ele.


Será difícil não se contagiar com o kuduro, pelo menos uma vez, neste espetáculo relatado no livro. Após diversas sensações despertadas com a leitura ritmada, como a de se sacudir, o livro dá uma aula de dança, e reforça a importância da discussão sobre diversas problemáticas de forma bem didática. Entre tantas lições que ficam, uma delas é o prestar atenção e englobar os aspectos que o kuduro traz, quando ouvir numa próxima vez que é o “Sound of Kuduro knocking at your door”.

TÍTULO: Também os brancos sabem dançar

AUTOR: Kalaf Epalanga

EDITORA: Todavia

ANO: 2018