É possível imaginar essa linha vertical de César Vallejo como uma transversal, que faz com que os poemas do autor atravessem a percepção e o corpo do leitor.

Bruno Pernambuco

Ler César Vallejo, poeta peruano da primeira metade do século XX, e um dos mais reconhecidos autores modernos da América Latina, é, como apontam Fabrício Corsaletti e Gustavo Pacheco, tradutores da recém lançada edição de Poemas Humanos, seu livro mais famoso, uma experiência vertical, vertiginosa.

É possível imaginar, igualmente, essa linha vertical como uma transversal, que faz com que os poemas do autor atravessem a percepção e o corpo do leitor. A leitura de um poema de Vallejo é incômoda, provocativa, é a princípio estranhando-o que o leitor se familiariza com suas imagens, e com o que é evocado ali. Por um lado isso vem de sua linguagem áspera, coloquial e sentida, quase “de homem, não de artista”, como definiu Charles Bukowski. Por outro, de seu domínio das formas clássicas da poesia espanhola, que sob sua interpretação viram formas que desestabilizam o leitor, frustram o ritmo que seria esperado, ou a imagem que seria óbvia. São “insinuações de regularidade” que estão presentes na poesia de Vallejo, como descreve a crítica Michelle Clayton.

Alguns dos poemas presentes na obra recebem títulos, outros são apenas identificados por seu primeiro verso. Os fragmentos presentes no livro não foram publicados em vida, sendo posteriormente reunidos a partir de anotações e diários do autor, e há assim uma questão a respeito do que exatamente pertenceria à alcunha dos “Poemas Humanos”.

César Vallejo é um escritor que explora formas poéticas longas, densas, e muitas vezes bem articuladas e conclusas. A sensação de fragmentação e incompletude que está presente em seus poemas vem mais de sua escolha de palavras- de construções poéticas que presumem o silêncio Talvez por isso faz sentido abordar sua poesia por meio de estilhaços, e, através de um olhar direcionado perceber alguns movimentos, observar como algumas partes remetem a um todo do projeto poético do autor. Assim, convido aqui o leitor a parapeitar-se, e observar- de dentro, mais que de cima, como ponto de vista- seis vertigens surgidas dos Poemas Humanos.

I

(Quem não se chama Carlos ou qualquer outra coisa?

Quem não diz ao seu gato vem gatinho?

Ai, eu que só nasci somente!

Ai, eu que só nasci somente!

Altura e Cabelos, 1.)

Há nos poemas humanos certas semelhanças modernistas com o Brasil que quase ultrapassam o ponto da coincidência. O primeiro livro do poeta, Trilce, é publicado em 1922, e serve como um marco tão influente para a poesia de vanguarda latino-americana quanto as publicações modernistas são para a literatura brasileira do século XX.

No primeiro poema, talvez o mais conhecido dos Poemas Humanos, se podem imaginar três poetas latinos compondo, em sequência, sua última estrofe. Se vê, em primeiro lugar, uma indagação que ecoa o Poema de sete faces. Depois dela, interjeitando-a, uma outra questão, que poderia fazer parte de um dos elogios de Neruda aos gatos- distanciando-se do homem comum, o seu duplo a quem Vallejo se dirige no poema, e aproximando-se, talvez, de uma linguagem de ordem animal. Por fim, um lamento que facilmente poderia se encontrar na Cinza das Horas de Manuel Bandeira: o lamúrio de somente nascer, mais nada.

II

(Foi domingo nas claras orelhas do meu burro,

do meu burro peruano no Peru (…)

Mas hoje já são onze horas na minha experiência pessoal,

experiência de um só olho, cravado em pleno peito,

(…)

“Foi domingo nas claras orelhas do meu Burro, 12.)

Não há mapa que permita entrar na poesia de César Vallejo. As linhas de força que movem o poeta- o seu deslocamento, ao mudar-se para a França, distante de sua vida no norte do Peru; as dificuldades da vida em Paris, e seu envolvimento com o comunismo e com a União Soviética- estão todas expostas, e continuamente se entrelaçando, em caminhos de complicado desenho. Sua imagem é como um labirinto de fios descapados, que em cada intersecção produz uma descarga elétrica. Cada encontro cria uma linguagem nova, que irrompe no seu veio particular.

Um verso de César Vallejo é muitas vezes uma imagem que só tem sentido por um segundo, que fora de seu contexto imediato parece não ter força de analogia. É uma aparição rápida, mas que, em sua estranheza, revela raízes profundas, que lhe dão sentido. Um verso num poema de Vallejo se torna um grafema instantâneo desse complexo labirinto subterrâneo.

III

((…)

A cólera que quebra a alma em corpos,

o corpo em órgãos tão dessemelhantes

e o órgão em oitavos pensamentos;

a cólera do pobre

tem um só fogo contra duas voragens.

“A cólera que quebra o pai em filhos, 53.)

A poesia é criação de espaços (a separação colocada em uma frase para torna-la verso, o espaço colocado entre uma estrofe e outra), a elaboração de uma sintaxe própria. Essas alterações transformam termos correntes em linguagem poética, provocam sentidos a partir das afetações causadas ao leitor.

Os poemas de César Vallejo têm o som do eco de uma palavra que é atirada no silêncio. Em muitas ocasiões dos Poemas Humanos, o discurso do poeta deixa entrever um interlocutor a quem o eu lírico se dirige diretamente, mas o impacto de suas palavras ressoa em um espaço em que essa outra pessoa não está presente. É uma conversa que revolve a um nível anterior, mais direto. Seus cortes no espaço vazio, na reverberação do silêncio, são precisos e secos, da mesma forma que são os cortes antevistos no poema 53, “A cólera que quebra o pai em filhos”.

IV

(A paz, a vespa, as solas, as vertentes,

o morto, os decilitros, a coruja,

os lugares, o fungo, as sepulturas, os copos, as morenas,

o desconhecimento, o bule, o coroinha

(…)

“A paz, a vespa, as solas, as vertentes”, 39.)

César Vallejo compõe silêncios com suas palavras. Esculpir esses silêncios, esses espaços, é talvez a atividade principal de sua poesia. Olhando Vallejo em par com outros autores, porém, o poeta peruano age dentro desse lavor, desse métier, de forma distinta de um artesão como Manoel de Barros, que declarava essa pretensão e esse interesse pela ausência como espaço criado pela escrita.

Os silêncios de Vallejo decorrem da desconstrução da palavra (Stephen M. Hart assim define o poema “A paz, a vespa“) e da desconstrução da frase. A falta de uma unidade da estrutura tradicional do período cria um estranhamento, uma expectativa que, para o leitor, não encontra conclusão, ressoa apenas. Ao mesmo tempo a palavra se desgasta- jogando com a relação unidirecional, retilínea, entre sujeito e objeto, Vallejo gera outras formas desse encontro a partir da fricção dos termos, jogando uma contra a outra palavras de um mesmo grupo, fazendo do som da sua batida a liga entre os versos, as estrofes.

V

((…)

Para poder morrer,

precisamos morrer a cada instante?

E o parágrafo que escrevo?

E o colchete deísta que desfraldo?

E o esquadrão em que falhou meu crânio?

E a chave que se encaixa em qualquer porta?

Sermão Sobre a Morte, 76.)

Jean Franco comenta sobre o uso da Auxese na poesia de Vallejo. O recurso de “dispor as palavras em ordem ascendente de força” reflete um método constante do poeta, que em diferentes ocasiões deixa que a sobreposição de termos sirva para construir o sentido de um poema, em vez da elaboração de períodos  complexos, que estabeleçam uma continuidade entre as imagens

De forma única, a escrita de Vallejo lembra que não existe uma sequência natural de força dos objetos, apenas uma sequência de termos, organizada pelo poeta, a partir da qual surgem sentidos de forças. Não há como comparar a força de um tanque e a força de uma chave, a não ser dentro do contexto em que esses objetos são apresentados dentro de um poema.

VI

((…)

com que mão despertar?

Com que pé morrer?

Com que voz calar?

Com que ser pobre?

“Viesse o mau, com um trono no ombro”, 71.)

Muitas vezes a poesia de César Vallejo se especifica em sua figura, e o poeta assume o recurso  de falar em primeira pessoa- às vezes aludindo a fatos de sua realidade imediata, sua saúde, sua casa, outras vezes construindo uma personagem de si dentro do poema, aproximando-se do esforço de “estetização da vida” que se tornou comum entre artistas de sua geração.

“Com que identidade ser ninguém” é uma pergunta que fica após a leitura do fragmento que começa com o verso “Viesse o mau, com um trono no ombro”.  Sâo exploradas, por Vallejo, nesse poema as contradições necessárias, a necessidade que define e pauta a ausência.  A construção traçada pelo poeta nesse momento é extremamente refinada, bem acabada, de forma que evoca o paradoxo como um signo presente em diferentes momentos da poesia de Vallejo. Brevemente, logo antes desse poema, o fragmento 69 finda com uma imagem que serve para descrever a lírica dos Poemas Humanos: a de uma poesia que “acaba de passar sem ter chegado”.

Poemas Humanos

César Vallejo

Trad. Fabrício Corsaletti e Gustavo Pacheco

ed. 34

R$ 83,00