Imagem de capa: Xavier Cantat/divulgação
Nota – Esse texto foi, originalmente, escrito por ocasião do Dia Mundial do Teatro, em 2020, quando, no início da quarentena da COVID-19, a Companhia Dos à Deux, em ação conjunta com grupos de teatro de diferentes regiões do Brasil, disponibilizou um registro gravado do espetáculo Irmãos de Sangue. Uma nova transmissão do espetáculo acontece, dentro da mostra Dos à Deux: A Singularidade de uma trajetória, neste sábado, 13/3, às 18h, no canal do youtube da companhia, seguido de um bate-papo com os atores.
Bruno Pernambuco
Tenho plena consciência, que, ao assistir a filmagem de Irmãos de Sangue, não vejo a coisa real. A distância à tela, por ser distância a eles, é, também, distância de mim a mesmo, conquanto não posso me reconhecer na materialidade dos intérpretes, nem nos objetos, nem no lugar, nem na sensação que eles me trazem. Seria, assim, impossível assistir a peça sem sua existência- no entanto, por sua força a obra inverte esse solipsismo de dúvida cartesiana, com suas evocativas imagens que atravessam a alma, e dialogam com o reino da memória, arrancando-lhe lembranças, gritos, suspiros, a violência pura ou cristalizada em beleza.
Seguindo uma marca dos trabalhos do grupo Dos à Deux, Irmãos de Sangue é um espetáculo construído sobre o ilusionismo. O palco é um espaço continuamente esculpido, e os objetos da cena estão sempre a denunciar sua falsidade, mudando de função, sentido e história conforme o jogo cênico. Outra marca, também registro particular do grupo, é a centralidade do corpo enquanto objeto cênico, e enquanto figura fundamental para compor aquelas fotografias que definem a imagem da peça. Por um lado, o movimento corporal é pensado enquanto condutor da narrativa da peça, funcionando como elo que une os diferentes estados. Por outro, a vida da peça, a chama que faz com que o movimento que se desenrola no palco provoque, também, um movimento interno no espectador, nasce da precisão, da beleza e da intensidade dos gestos corporais, expressivos tanto na minúcia quanto na apoteose, que animam as coreografias minuciosamente elaboradas. Esses gestos, que exigem uma força física tremenda para sua precisão, conferem à peça sua força espiritual. O que se encontra diante de nós não é a aparição fantasmagórica, mas a parte de nós mesmos, vibrante, pulsante- aquela que tanto morreu quanto sofre luto por si.
Pode se enxergar em Irmãos de Sangue a despedida a um eu anterior. O luto, afinal, não deixa de sê-lo. Chorando, me despeço também de mim, que amei aquela pessoa viva, tão presente quanto eu. Só com ela vivi certas coisas, só por ela vivi outras, e só com e por ela vivem e viverão em mim certas lembranças, ou outras. Me despeço do jeito de amá-la, também único, e irrepetível.
Mas se trata, essencialmente, de um espetáculo sobre o outro. Num espetáculo em que ele é constantemente destruído, da proximidade dos irmãos quase univitelinos à distância do irmão rejeitado, da ruína da família retida no quadro à rachadura no silêncio pelo coro que lamenta a morte, é ainda assim só nele que está a possibilidade de mim mesmo. É dele que nasce o novo, e se dele persiste essa maldição, pesada corrente que é a memória, é porque nele também esteve a vida, tão ignorada quanto fosse.
Se trata, essencialmente, de um espetáculo sobre o outro. Esse ponto final poderia encerrar o texto, da mesma forma que encerra a peça.