(Imagem: Guto Muniz/divulgação)

Por Bruno Pernambuco

Para ver de perto as coisas, notar as suas nuances, entender uma mudança que surge em meio a várias repetições, é necessária uma mudança de ponto de vista, uma quebra dos lugares tradicionais. 

Para falar a partir de “nós”, esse pronome estranho, uma voz plural que se reconhece, reflete sobre si, que evidencia a necessidade de algo além do “eu”, é preciso, conscientemente, mesclar os papéis. Os papéis sociais, sim, aqueles que dividem e categorizam a partir de definições de gênero, de raça, ou de profissão, mas também a cisão, como dois papeis que não se podem transpor um ao outro, entre público e intérpretes. Isso não para negar a especificidade da interpretação e do trabalho desenvolvido no espaço cênico, mas elaborando um convite, assumindo o palco como um espaço que muitos podem construir.

Nós é um espetáculo vivo, em transformação. O limite do palco é uma estrutura móvel, que se desmonta e depois retorna, ora é uma parede, aproximando as personagens do centro do palco, ora está distante, funcionando como coxia, ora é um objeto cênico que se transforma em um alçapão. A imagem do espetáculo é desenhada em uma perspectiva cambiante, que muda de profundidade, se afasta e depois se aproxima do público. 

É um espetáculo que se amplia, recebe a plateia em alguns momentos, depois retorna à concisão da ação dramática, e aos limites de um espaço bem determinado, e então se conclui num momento em que não há separação entre plateia e intérpretes, em que o público é convidado para construir o espaço do palco. A dança invade e torna vivo o espaço, a festa traz uma nova construção.

Se uma memória é construção ativa do público, a partir do fim da peça, no espaço do palco sem objetos cênicos, outra memória fica na presença daquilo que se dissipou. Uma cena é repetida ao longo da peça: as personagens se reúnem em volta de uma mesa, e preparam uma refeição. Eventualmente essa mesa é desmontada, dando lugar a outras imagens que ocupam a parte final do espetáculo, mas a sopa que foi, de fato, cozinhada durante o tempo das cenas, é oferecida à plateia pelos atores, junto com um drinque preparado em outra cena. Pelo interior do corpo, pelo estômago, se faz uma outra memória corporal, e também coletiva, de Nós.

Os Nossos Nomes

A fábula do espetáculo, construída em torno do encontro de sete personagens reunidos em uma mesa, logo dá espaço a solos, momentos em que cada personagem se destaca no grupo. Essas passagens servem como transição para novos encontros, em que as personagens se reúnem sob novas situações, mudam seu comportamento, transformam suas ações.

Nos interlúdios entre o encontro coletivo, a dramaturgia assume um outro tom, incorporando relatos que misturam personagem e intérprete, momentos em que os atores passam ao papel de performer

A história do grupo, nessas passagens, é lida junto com acontecimentos brasileiros e globais, marcas de um momento histórico no qual foi desenvolvido o processo de Nós. São, em geral, histórias de violência física e política, ou descrições de atos de extremismo, enunciados nesses momentos. 

Essas narrações são um momento de dúvida, são a tradução de uma distância entre palavra e imagem, a busca de um gesto capaz de representar e elaborar uma violência que é horripilante, paralisadora. Uma violência que não pode senão deixar o encunciante, o personagem-ator-performista, em um estado reflexivo, questionando-se, observando-a à distância.

Em outros momentos monólogo e em outras cenas da peça, uma sensação de dúvida aparece na forma uma questão a respeito da própria identidade. As personagens de Nós são figuras cheias de perguntas. Personagens sem nome, que se definem apenas no encontro, que dependem das outras figuras no palco para encontrar seus próprios limites, para se definir e para enunciar suas dúvidas, mas que percebem que o encontro apenas pode criar questões novas.

O Nó dos Outros

Nós brinca com uma trifurcação da palavra. O curto pronome, lidado com os acontecimentos da peça, já lança uma pergunta: como que várias individualidades, distintas, se reconhecem e sentem a necessidade de se atribuir uma identidade coletiva? E quem está incluído dentro de “nós”?

Ao mesmo tempo, o título alude àqueles nós que são inevitáveis- a multiplicidade e confusão dos sentimentos, a forma como as sensações, na vida se emaranham em combinações enroscadas (ou então o nó sentido no estômago nos momentos de emoção.). Também o “nó do destino”, talvez a metáfora mais imediata evocada pela palavra, pensando nas coincidências que se apresentam na vida, na forma como o inesperado surge  continuamente, extrapolando o que estava planejado.

Igualmente, porém, estão contidos na palavra aqueles nós sufocantes: o de um espartilho que aperta o diafragma, de uma corda que aperta o pescoço ou ata as mãos de um refém. Esses nós impostos, em determinado momento da peça, surgem como uma amalgamação forçada, como vários corpos amarrados, paralisados pelo nó. Uma imagem que lembra o quanto o eu pode ficar amarrado, maltratado dentro do nós.

A contração, representada na imagem, logo se solta em uma grande abertura. “Como começar” é uma pergunta que, através da fala de um personagem, o espetáculo coloca apenas nesse momento, próximo de seu fim. Essa passagem explicita a ironia proposta pelo espetáculo: tudo o que já aconteceu na peça é fim, o que vem pela frente é que é começo, um começo que vive na retomada do corpo, na presença e na festa. 

No momento em que o público se torna agente do palco, ocupa o lugar que é seu, é que a encenação, a fábula do espetáculo começam- é um momento que começa tudo o que veio antes, pois é esse gesto que lhe atribui sentido.

A festa coletiva, a liberação do corpo, a dança, alimentam também o momento da reflexão, cálida, cândida, individual: quem sobrou no palco fomos nós.

(“Nós”, espetáculo do Grupo de Teatro Galpão, foi apresentado em Sâo Paulo entre os dias 14 e 17 de dezembro de 2022)