«Era cedo para vender a pele ao urso; a fera espera de presas carniceiras a luzir e garras crispadas na floresta dálem-Aisne. A vitória deixou de ser um axioma para se tornar um ponto sumptuoso de dialéctica. Os escritores da plêiade revancharde discutem-na a perder de vista, encaram-na sob variadíssimos prismas, refutam seus imaginários impugnadores, abanam a cabeça, tiram e põem os óculos, invocam os manes de Napoleão e Grisot, e, depois de morosa operação analítica, exclamam convencidos e frenéticos:

    -- É a vitória, pois não é a vitória?

No Petit Journal Jean Richepin, ontem caminheiro de bordão e sacola, hoje laureado de casaca verde, exclama: "Taïaut! taïaut! Somos os descendentes dos vencedores de Iena que souberam montear a rês, converter-lhe a carreira em derrota e a derrota em açougada. Estamos desertos por fazer o mesmo com os nossos galuchos, o nobre rei Alberto, o czar magnânimo... e ajustar contas com o kaiser-Bonnot, esse cabotino do Apocalipse, que se julga enviado de Deus por ter desencadeado sobre a civilização dos Estados Unidos da Europa um furacão de barbárie. Avante, pois, na peugada da rês; para atrapalhá-la na fuga, gritemos o nosso taïaut! taïaut até que vá estatelar-se no covil dos pântanos de focinho esmurrado e mendigando um perdão que ninguém lhe pode conceder, ao contrário odiada e desprezada pelo mundo inteiro, que há-de fartar-se de rir ao vê-la açoitada pela nagaika dos cossacos e servida em postas na ponta das baionetas pelos atiradores de África."

Esta arrancada feroz dá a medida do furor bélico que se apossou de toda a gente. Richepin passa por bom e pobre homem que nunca exerceu profissões que endurecem a alma, de magarefe, apache, coiteiro, juiz do foro criminal, enxota-cães. É membro do Instituto, poeta lírico e heróico que na mocidade se aprouve a cantar os pobres malandros de Cristo. Bem pouco há deu ao teatro a lânguida peça Le Tango. Tirem-lhe a farda de imortal, vinte anos de cima do pêlo, metam-lhe uma lebel na unha e oust! Quem vem lá? Bah, um daqueles valentes que Voltaire pinta, herói que nas aldeias inimigas viola primeiro, depois rasga, como odres, os ventres das raparigas para que não mais fecundem, pica à ponta de sabre, para castigo de terem dado ao mundo soldados inimigos, as solas dos pés a velhos e velhas, aos quais acaba por despachar com uma baionetada em cheio, extirpa as vidas em flor que constituem o perigo de amanhã. E são todos assim; franceses e alemães, negros ou brancos, deste século ou da Idade Média.

Quanto a sentimentos colectivos, exacerbados por toda esta grita bárbara de caçadas de altanaria, com monteiros-mores cá e lá ao estilo de Barrès e de Richepin, eis pelo que respeita à França a nota do comandante da 12ª Região de Limoges: "Continuam a ter lugar inconvenientes e escandalosas manifestações à chegada de feridos e prisioneiros alemães. Lá porque certos actos de selvajaria sejam imputáveis aos nossos adversários, seria miserável e cobarde julgarmo-nos com direito a imitá-los."

Decerto a multidão que dá vivas a Deibler no final das execuções é muito capaz de linchar os cativos. Certo maire, temeroso de ocorrências de tal natureza, ao mesmo tempo que anunciava à Comuna a vinda de prisioneiros, fazia-lhe está sermonenda: "Quantos deles não marcharam contrariados, coagidos por um deplorável encadeamento de coisas a seguir os chefes? Se alguns fazem a guerra com desejo de nos vencer, outros só a fazem à sobreposse."

Paris aguardava ontem um comboio de prisioneiros no trajecto que vai da Gare de l'Est à Gare d'Orsay. Com certeza, não era para lhes dar água como a Cristo o Cirineu. As autoridades houveram por bem modificar o itinerário, esquivando o boche às vaias, aos apupos e ao resto. Do lado de lá deve fazer-se a mesmíssima coisa, em primeiro grau com o mujique russo e o labrego sérvio. Todas estas monstruosidades constituem a inevitável floração da guerra.»