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Set24

«É A GUERRA». 1934. Diário da conflagração mundial. PARIS, Ano 1914: [01/08 a 26/09].

Manuel Pinto

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PARIS/MCMXIV

DOMINGO, 20 DE SETEMBRO

«... Senão, observaria com sobressalto que às portas dos quartéis, dos albergues, das cozinhas económicas e escolas comunais há rios de gente pela volta das cinco horas. É o exército dos desempregados e daqueles cujos mesteres não têm mais razão de ser, ou cuja laboração foi suspensa, operários, jornaleiros, homens-sandwichs, pequenos actores, prefeitos de colégio, pontos de casa de batota, criadas e empregadas de armazém. Os homens formam a uma banda, as mulheres a outra. São dois arraiais de rotos e de lázaros, cobertos de andrajos e malcheirosos, barba intonsa e cabelos despenteados, caras sujas pela imundície e lavradas pela fome, admirável escultora de máscaras. Entram por uma porta e saem por outra, a dentuça cravada na côdea de pão, a que serve às vezes de conduto um naco de chouriço, de queijo ou de toucinho.

Nos bastiões dos bulevares exteriores os soldados passam-lhes por cima das paliçadas os restos do rancho que eles recolhem em escudelas, tachos e até num jornal velho. As mulheres que mostram ainda uns restos de frescura trocam pelos pobres favores do corpo a esmola de lhes matarem a fome. Na crise que desabou sobre a cidade não são as mulheres as mais provadas, todavia. Substituíram os maridos e companheiros sempre que foi praticável tal recurso, e com presteza e essa ductilidade inexcedível do francês, mormente da mulher, se adaptaram aos serviços mais variados, desempenhando-os com perfeição.

Dos meandros escuros da capital, Marais, Halles, Mouffetard, Vanves, Ménilmontant, a miséria emerge e escorre ao sol, alaga certas ruas, em direcção ao posto de caridade pública ou particular, densa e sórdida, dando a impressão do rastejar das lagartas processionais.»

publicado às 19:55