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PARIS/MCMXIV

SEGUNDA-FEIRA, 21 DE SETEMBRO

«... Em verdade ao espírito repugna uma causa, por muito suprema que seja, mercê da qual se produza em poucos dias ou horas o aniquilamento da obra cuja construção levou duzentos e cinquenta anos de labor ininterrupto, em génio e vontade mais assombrosa que o mais assombroso trecho de montanha, vale, bosque, catarata. Memorável por ser a ara santa em que iam jurar os reis de França, a catedral de Reims era um dos oásis de divina beleza à flor da terra, em geral feia e repulsiva. Decerto, porque a arquitectura acompanha a humanidade desde o seu alvorecer, não há arte que exerça impressão mais imediata e profunda. Nenhum homem, desde a inteligência mais requintada à mais rude, desde o coração mais sensível ao mais frio, ficava indiferente ao sortilégio da Sé veneranda. Além de pacificar, transportava a alma para fora dos limites angustiosos do horizonte de todos os dias. Era a mediadora entre a terra e o céu. Destruí-la é como apagar um fanal no mar escuro. Dos malefícios de que é objecto não torno, em minha consciência, responsável a Alemanha ou a França, mas o espírito imundo que gerou a guerra.»