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Jul20
Maria do Rosário Pedreira
Uma das coisas melhores da leitura é que frequentemente há livros e autores que nos levam a outros livros e outros autores. Há pouco tempo, fiquei muito seduzida pelas citações e referências que Julian Barnes fazia do escritor francês Jules Renard (1864-1910). Lembro-me de ter aqui falado dele e de algum dos Extraordinários me recomendar O Pendura. Pois é desse livro que falo hoje, já quase a acabá-lo, pois é uma maravilha de verrina e maldade elegante, além de ter das mais belas metáforas que li na vida. Em Portugal, que me lembre, não temos grandes cultores deste género na literatura, às vezes o Eça, mas de uma forma que dá logo vontade de rir (e aqui pode atar-se um nó no estômago, mas logo vem o sorriso para perdoar o pecado). O enredo pode resumir-se à história de um homem que escolhe um casal para nele «parasitar» (na verdade, este «pendura» é também um «crava» ou um «penetra»), e esse casal, crendo-o um grande poeta e bem relacionado com a intelectualidade, dá almoço, jantar, guarida, mimo e muito mais ao oportunista que usa e abusa do que lhe é oferecido e, mesmo assim, continua ferido pelo tédio. Como se conta no prefácio, o livro que o escritor Jean d'Ormesson levaria para uma ilha deserta seria o Diário de Jules Renard, por lhe dar a garantia de nunca se aborrecer. Tenho de ler. «Renard» quer dizer «raposa» em francês e é masculino. Jules é uma fantástica raposa.