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Jun12

Maria do Rosário Pedreira

Penso muitas vezes que, se ainda tiver direito a reforma (o que é cada vez menos certo), terei imenso tempo para ler todos os livros que, por qualquer razão, ficaram quietos na estante ou interrompidos sem esperança de serem retomados. Mas a verdade é que também pode acontecer querer essa disponibilidade para outras coisas, eventualmente farta de não fazer outra coisa senão ler. O pai de uma amiga do Manel, que era um leitor voraz com uma biblioteca de fazer inveja a qualquer (leitor) mortal, quando se reformou acabou por tornar-se um espectador assíduo de telenovelas e perder a paciência para a leitura (que, já se sabe, exige muito mais de uma pessoa). O escritor António Alçada Baptista escreveu uma vez uma crónica sobre o assunto, dizendo que guardara os clássicos que não lera para a velhice, mas que, velho, não tinha vontade de os ler. Tenho esperança de, nisso, sair à minha mãe: é que todas as semanas tenho de lhe levar um livro diferente; e não só ela o papa rapidamente, como ainda se dá ao luxo de o criticar – e me criticar – se lhe levo um romance com menos sumo. Como já tem quase 88 anos, pode ser que eu lhe siga as pisadas...