Por José Leonardo Ribeiro Nascimento
Há alguns anos sou fã da série A Song of Ice and Fire, do escritor americano George R. R. Martin. Conheci a série graças ao jogo de RPG de mesmo nome que a extinta Guardians of Order fez. Nunca cheguei a jogar uma partida (formar um grupo para Game of Thrones é complicado quando se vem de uma campanha de RPG de super-heróis com poderes para destruir uma cidade inteira), mas o cenário me fascinou, e fiquei louco para ler toda a história.
Acabei comprando os quatro volumes publicados até hoje (A Game of Thrones, A Clash of Kings, A Storm of Swords e A Feast for Crows) e me apaixonei pelo universo criado por Martin, além dos incríveis e numerosíssimos personagens (Tyrion, Jon Snow, Sandor Clegane, Arya Stark, Syrio Forel e Daenerys apenas alguns dos meus favoritos).
Desde que li que a HBO iria lançar uma série com a história do primeiro livro fiquei ansioso, e agora estou só aguardando 2011, quando acontecerá a estreia.
Apesar de ter lido os livros em inglês, queria muito que traduzissem para o português, para poder ler novamente, com mais calma, e para que meus irmãos, também leitores apaixonados, pudessem ter o privilégio de conhecer tão impressionante saga. Fuçando na internet, descobri que a editora portuguesa Saída de Emergência já publicou os quatro livros (transformados em oito, na verdade) em português (de Portugal, é óbvio), mas eles não vendem para o Brasil, apesar de eu já ter enviado vários e-mails, sem que tivesse obtido qualquer reposta.
Na semana passada vi no Portal RedeRPG que a Editora Leya vai lançar agora em setembro “A Guerra dos Tronos”, versão brasileira para “A Game of Thrones”. Aí, mais uma vez, buscando informações na internet, vejo um artigo no blog Leitura Escrita informando que não houve tradução! A editora simplesmente comprou a tradução para o português, feita por Jorge Candeias (que já se manifestou sobre o assunto, no blog Lâmpada Mágica) e fez uma “adaptação”.
Isso para mim é algo tão absurdo que parece conteúdo de alguma piada de estudante universitário que levou zero em um trabalho acadêmico por ter feito exatamente uma “adaptação” que o professor rejeitou.
Acredito que os responsáveis pela Editora Leya julgam que os leitores da série são todos idiotas, desprovidos de qualquer noção das coisas. Ou imaginam que são nerds que ficariam tão empolgados com o fato de a obra ser em português, e a leriam tão vorazmente, que sequer notariam, repito, o absurdo que é “adaptar” uma tradução. E adaptar mal, diga-se de passagem.
Umberto Eco tem um livro chamado “Quase a mesma coisa”, no qual ele fala das experiências de tradução, relatando que é impossível que um texto traduzido fique exatamente igual ao texto original. Harold Bloom, um dos críticos literários mais conhecidos (e polêmicos) em todo o mundo, afirma que para se captar a essência de uma obra, deve-se correr das traduções. Ler na língua em que a obra foi originalmente escrita é ler o que o autor escreveu, com tudo o que isso significa. Qualquer tradução implica perda, e basta ter um mínimo de bom senso para perceber isso. Se traduzir já é complicado, “adaptar” uma tradução… Se traduzir é “quase a mesma coisa”, o que se pode dizer da adaptação? Lógico: “quase quase a mesma coisa”. Isso se a adaptação for bem feita, o que, definitivamente, não ocorreu.
Isso exposto, me pergunto: como uma editora comete uma barbaridade dessas? Será que ficaria tão mais caro pagar um tradutor para traduzir todo o texto dos originais em inglês? (eu sei que ficaria, mas esse é um custo inerente à publicação de bons livros). Se o livro tivesse sido escrito em latim, grego ou algum dialeto eslavo, eu até entenderia, pois se poderia argumentar a dificuldade de se encontrar bons (e baratos) tradutores. Mas em inglês?
“Ah!, Não reclama! É só não comprar o livro”, alguém pode argumentar.
ERRADO!
Sou um fã da série e aguardava com grande expectativa a chegada dos livros ao Brasil, como já havia afirmado. Ao disponibilizar uma edição “adaptada de uma tradução”, que desrespeita a inteligência dos leitores, a Editora Leya está estragando tudo, porque, independentemente da qualidade, o fato é que a obra vai adquirir o status de “Publicada no Brasil”. Com o advento da série da HBO, no ano que vem, e com o sucesso que acredito que vai fazer, uma editora competente poderia até querer publicar o livro, o que fica bem mais difícil por já ter uma edição no mercado…
Minha campanha é: ESPALHEM A NOTÍCIA DE QUE NÃO VÃO COMPRAR O LIVRO, POR MAIS FÃS DA SÉRIE QUE VOCÊS SEJAM. Eu vou fazer o mesmo.
A minha esperança é que a Editora Leya fique com medo do prejuízo (parece que é só isso que tem orientado a estratégia de negócios da editora) e resolva, ao menos, fazer uma “adaptação” da “adaptação da tradução” ou, o que eu preferiria, tenha a dignidade de, em respeito ao trabalho do tradutor Jorge Candeias, simplesmente publicar a obra em português de Portugal, deixando clara tal informação na edição brasileira.
Winter is Coming.
“Adaptação” de tradução da Editora Leya para “A Game of Thrones”
Literatura, Tradução literária, Mercado editorial, George R. R. Martin, Crítica à Editora Leya, Série Game of Thrones
Texto originalmente publicado em Catálise Crítica