Fragmentos de Eternidade – fragmento dois
música clássica, Tchaikovsky, esperança, crítica musical, condição humana
Tchaikovsky, por que não te calas? Por que insistir em demonstrar que ainda existe esperança para os homens, que tudo ainda tem conserto? Basta ouvir os primeiros acordes e a esperança começa a se alastrar, crescendo em ondas concêntricas. O piano entra, insidioso, cruel, e rouba com dedos límpidos a respiração do ouvinte. Violinos manobram o ar com suavidade, brincando com o fôlego ainda suspenso, ainda pairando sobre a sala. E o que era feio começa a se metamorfosear em bonito, e o que era desprezível adquire um novo significado, e o que era simples se torna incrível. O piano volta, retoma o tema dos violinos e, em seguida, despenca. A esperança sofre um gélido abalo. A música esfria. Dúvidas enchem o espaço onde outrora imperava a esperança, será que existe conserto mesmo? Subitamente, como Lázaro saindo da tumba e sentindo o raio de sol que imaginava nunca mais sentir, como um boxeador derrotado que se ergue e lembra que ainda está vivo apesar da queda, o piano recaptura o tema e, majestoso, vivo, ergue-se em meio à planície e grita que, sim, existe esperança. E Tchaikovsky insiste em me enganar, insiste em demonstrar que a Humanidade tem esperança, que a vida é bonita e que ainda podemos sorrir no meio de todas as agruras. Alegro non troppo e molto maestoso, existe melhor descrição para um ser humano do que esta? Publicado por Gustavo Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo
Texto originalmente publicado em Homem Despedaçado