João Matos

Crédito da imagem: “Transformai as velhas formas do viver”, Aline Motta, 2025.
Um dos conceitos fundamentais para o entendimento da obra da norte-americana Christina Sharpe é o de Vestígio [Wake], que aparece no livro No vestígio: negridade e existência, traduzido para o português em 2023. Nele podemos ler, logo no primeiro capítulo, a elaboração do conceito, que aparece construído por meio de seu relato pessoal sobre a morte da irmã mais velha, IdaMarie.
Sharpe relata que a morte de sua irmã precedeu o falecimento de outros dois familiares em um período de dez meses. Outras perdas já tinham acontecido em sua família entre 1997 e 1999. Pensando na repetição de outras mortes Negras como uma norma na Diáspora, Sharpe busca tensionar os silêncios do seu seio familiar para refletir acerca das lacunas provenientes da escravização e do tráfico transatlântico, mas que persistem, pois “o desastre e a escrita do desastre nunca estão presentes, sempre são o presente”.
Viver/existir no Vestígio não estaria relacionado ao preenchimento dessas lacunas, mas sim ao gesto de “perguntar o que, se é que algo, sobrevive a essa persistente exclusão de pessoas Negras, a essa negação ontológica, e como a literatura, a performance e a cultura visual observam e medeiam essa (não) sobrevivência”.
Em A água é uma máquina do tempo, livro que compõe o corpus da minha investigação de mestrado, Aline Motta também parte dos silêncios deixados pelas mortes das mulheres de sua linhagem familiar:
“Deixou um rastro de leite e sangue. Teve sete filhos, entre eles, minha bisavó. Morreu de tuberculose, mas a história que contam é que morreu de susto por causa das bombas na baía de Guanabara durante a Revolta da Armada. Militares contra militares, a República era só mais um golpe. Os vidros trincavam, as xícaras tremiam, a estrutura da casa ficou abalada.”
O texto de Motta está inscrito junto à presença material de documentos recuperados durante a pesquisa da autora a respeito de sua história familiar. Porém, o arquivo não parece dar conta de responder às questões que circundam essa história: aparecem não como prova e sim como vestígio dessas existências anteriores.
Assim, o olhar crítico sobre os documentos aliado ao texto de Motta torna possível ver no presente o que ficou registrado no passado apenas como falta, refletindo sobre a identidade de sua tataravó e de outras pessoas Negras sobre as quais não parece possível saber mais por conta de um apagamento histórico, que se mantém. O documento é, então, um “vestígio” que aponta para uma falta e ao mesmo tempo para a impossibilidade de preencher essa falta.