Depois de ter lido duas críticas implacáveis - uma, acerca da entrevista do José Rodrigues dos Santos ao Diário de Notícias, e feita pelo crítico literário José Mário Silva, e outra sobre o novo romance da jornalista Patrícia Reis e que motivou um "a patrícia devia parar" por parte do crítico (José Teixeira Neves), nós na Casa dos Poetas prosseguimos com poesia de qualidade, apresentando alguns poetas menos conhecidos mas não menos valiosos, sobretudo para quem gosta de ser surpreendido por coisas novas. Encontrei por aí este Luís Brito Pedroso e decidi dar-lhe aqui algum destaque. Espero que gostem.
Dentes de Sabre
Pego numa vara e desenho à minha volta
com a dimensão dos meus braços um círculo no solo.
Dentro apenas uma areia escura, muito fina,
um pó perdido e inerte,
que enegrece os meus pés.
Pedras soltas, poucas. Mais nada.
Olho o círculo, trezentos e sessenta graus de país
com o tamanho dos meus braços
e o poema é apenas uma memória.
Adormeço em pé durante meses, fixo nestes ossos.
Cabe alguém nesta ilha?
Choro a tua partida como um continente
que chora o soltar de uma porção de terra,
de uma nascente ilha em direcção ao horizonte,
e espero neste ponto móvel que dês a volta ao mundo.
Deixo cair a túnica, a única coisa que me cobria.
Levanta-se um sopro, uma nuvem sobre quem eu sou,
uma rouquidão crescendo aos poucos na minha voz.
O meu corpo cobre-se de algas.
A meio da noite escura solto um grito,
o sal secou sobre a minha pele, volto a vestir a túnica,
cubro a cabeça com o capuz,
pego na vara e continuo a desenhar coisas estranhas
nesta areia até o sol nascer
Luís Brito Pedroso
Nascido em Lisboa, em 1977, é autor dos livros de poesia Poema Seis (2005 - Papiro editora) e O meu nome e a noite (2007 - Papiro editora)