Capa da série João de Deus: Cura e Crime . Foto: divulgação/ Netflix.

Disponível na Netflix, “João de Deus: Cura e Crime” conta os bastidores da denúncia que destronou o curandeiro de Abadiânia

André Vieira

Antes conhecida como um centro de fé e retiro de paz a 120 km de Brasília, hoje Abadiânia é só poeira. E silêncio. Nas suas quase nove dezenas de pousadas, centenas de casas de comércio e milhares de linhas de ônibus e excursões diárias antes frequentadas por brasileiros, franceses e australianos, existe um sentimento comum que os une: o abandono. Não que a pandemia tenha facilitado as coisas para cidade com seus quase 20 mil habitantes; é que os problemas de Abadiânia datam de outro abalo, o de fé.

Pelas lentes atentas dos diretores Mauricio Dias e Tatiana Villela, João de Deus:Cura e Crime é uma série-documentário que busca entender a complexidade da figura mística de João de Deus, ao mesmo tempo que assimilar a onda de crimes efetivada por João Teixeira de Faria, nome de batismo do médium e dono d’A Casa Dom Inácio de Loyola. Dividida em quatro capítulos com média de 45 minutos, a série traz à tona a batalha de mulheres vítimas do médium em busca de justiça e como a presença de João de Deus deixou cicatrizes em suas vidas.

Da esq. para dir.: Andrea Manelli, sobrevivente e denunciante de João de Deus; o médium João Teixeira Faria; Fiel pedindo bênçãos n’ A Casa de Dom Inácio Loyola, A Casa. Foto: reprodução/Netflix

Alternando entre relatos de funcionários d’A Casa, assim conhecida pelos locais da cidade goiana, especialistas de mediunidade, advogados de defesa e agentes da promotoria que coordenam o processo contra João de Deus, a série-documentário traça um panorama completo sobre o auge e o vale das práticas mediúnicas na região.  Simultaneamente, durante a narrativa, imagens de arquivo e tomadas de cena da paisagem de Abadiânia ajudam o espectador a entender os procedimentos de cura realizados pelo médium, assim como o auxiliam a assimilar a extensão do império criminoso de João Teixeira Faria. 

A história, contudo, se centra no papel das vítimas. Desde o primeiro capítulo, “O Curador”, há uma preocupação do documentário em colocar o protagonismo na coragem e na resiliência de mulheres que conseguiram transfigurar suas vivências na masmorra de João em mais 300 processos contra o médium. Através dos relatos como de Rejane Araújo, empregada em um templo de Candomblé, e da administradora de empresas Andrea Manelli, que nos acompanham durante toda a obra, a série cria uma identificação direta com as sobreviventes, realçando ainda mais seus relatos aos olhos do espectador.

Em tempo, isso não significa que não exista um espaço destinado ao ouvir “o outro lado” na trama. Não faltam momentos em que funcionários e fiéis da seita se prontificam na defesa de João de Deus, ressaltando as virtudes do médium na cura de desamparados e desesperançosos. Infelizmente, os crimes cometidos pelo médium foram feitos dentro das leis dos homens. Assim, João Teixeira Faria é personificação da ambiguidade: se dentro d’A Casa, o médium pôde operar milagres, ou pelo menos, “encaminhar os espíritos para realizar um bom trabalho”, distante de seus poderes sobrenaturais, Teixeira era própria personificação do mal.

João Teixeira realizando uma das centenas de cirurgias espirituais n’A Casa. Foto: reprodução/Netflix

Mandante de assassinatos, operador de lavagens de dinheiro, chefe de quadrilha, em Abadiânia a mão de João era de ferro. Segundo ex-funcionário d’A Casa, o florescimento da seita estava diretamente ligado à prosperidade da sua rede criminosa. Fosse pelo “pedágio” cobrado a donos de pousadas e taxistas para operarem dentro de Abadiânia, fosse pela promiscuidade com as forças de ordem e o Poder Público, João de Deus, sob a alcunha de santo e gângster de Abadiânia, reinou impávido inclusive entre celebridades e poderosos fora de seu escopo regional. Fora de seu hábitat, as palavras de João eram celestiais.

Mas seus gestos não foram santos. Por mais 330 vezes, em mais de 55 anos,  a mesma história de estupro se repetiu naquele pequeno quartinho a menos de 300 metros do saguão principal do centro espírita. Quem era aquele homem? Aonde esteva Deus? Quem ouviu o grito daquelas mulheres? Assim como A Casa, escrito por Chico Felitti, a série João de Deus: Cura e Crime é uma história para o silêncio não vença; em que o horror vivenciado por mulheres, adolescentes e, muitas vezes, crianças, resiste à própria natureza do tempo e se edifica numa única palavra: justiça.

E de certa forma, o legado deixado pelas sobreviventes — e pelo documentário — é romper com a violência que deu origem aos abusos de João de Deus. Por certo, não é fácil dar cabo a uma cultura tão enraizada no País, sobretudo em cidades distantes como Abadiânia. Contudo, Cura e Crime é mais uma — excelente — produção cultural que demonstra a importância de romper a espiral do silêncio, fazendo com que as próprias vítimas contem sua própria história. Nesse sentido, o documentário extrapola as demarcações do movimento feminista e encampa os valores de uma luta civil, brasileira e humanitária.

Por mais 330 vezes, em mais de 55 anos,  a mesma história de estupro em um pequeno quartinho a menos de 300 metros do saguão principal do centro espírita. Foto: reprodução/Netflix

Se João Teixeira Faria, hoje em regime aberto após decretado estado de calamidade sanitária, tem “a convicção que Deus vai [lhe] livrar dessa”, o documentário traduz um grande movimento de resiliência, solidariedade, e sobretudo, coragem entre as sobreviventes de uma cultura essencialmente machista e de atos bárbaros realizados por um homem. Prova maior disso é vermos, ao fim da série, a criação do Instituto Justiça De Saia, que por meio de ações afirmativas ambiciona criar um ambiente seguro para que mulheres possam fazer denúncias e exercer seus direitos básicos sem medo de poderosos e influentes na sociedade.

Agora, se o maior trunfo de Cura e Crime está em documentar a sororidade entre as vítimas — e promotoras — do jugo de João, seu maior pecado, para nos atermos à metáfora bíblica, é se delongar em explicações técnicas e argumentações longas sobre a denúncia do médium. É certo que essas passagens são indispensáveis para concatenar a história e fundamentar algumas passagens mais jurídicas do processo; contudo, ainda resta uma dúvida: precisa ser tão chato? Qual é o impacto na história quando assistirmos cena e cenas de Andrea revendo seu testemunho para audiência, ou de passagens repetidas de promotores e advogados reverberando as mesmas declarações requintadas?  A sétima arte é também notável por seu poder de concisão.

Hoje em regime aberto após decretado estado de calamidade sanitária, João de Deus acumula mais 60 anos de prisão em processos. Foto: reprodução/Netflix.

Não obstante, Cura e Crime compensa o lero-lero juridiquês com uma história fascinante, reunindo tomadas de Abadiânia e seus personagens e, principalmente, depoimentos estarrecedores cuja emoção transmitida ao espectador suspende qualquer dúvida das intenções de João Teixeira Faria com aquelas mulheres.  Com tudo isso aliado a um bom equilíbrio de vozes entre fiéis d’A Casa Dom Inácio Loyola e vítimas de João de Deus, a série propicia bons momentos no streaming e promete uma segunda temporada ainda melhor.

Série: João de Deus: Cura e Crime

Número de Capítulos: 4.

Onde? Netflix.

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Publicado por André Vieira

Jornalista gaiato e poeta-menor. Escrevo pequenas notas e algumas reportagens quando a missão vem à baila e engano — bem — na arte milenar do hai-cai fixo. Não gosto que cebolas toquem no purê de batatas. E sim, amigos, é bolacha e não bixxcoito. Ver todos os posts de André Vieira