Capa do livro A Casa/ Foto: divulgação Todavia.
De fluidez invejável, “A casa” conta a história do auge e decadência da seita de João de Deus
André Vieira
À primeira vista, o que faria de Abadiânia, cidade com seus menos de 20 mil habitantes, a 120 km da Capital Federal, se tornar o centro mais procurado para curas espirituais no País? Seriam a proximidade a jazidas prósperas e água fresca em pleno Planalto Central, a facilidade de acesso graças à BR-060, com ligação direta à Brasília, ou, quem sabe, as cirurgias espirituais de um tal João Teixeira Faria que promete, com auxílio de uma faca sem esterilização, desde alívio a dores menstruais à recuperação completa de câncer?
Alinhado a uma prosa transparente e objetiva a um aprofundado trabalho de apuração, em A Casa, Chico Felitti mergulha na história de homem que por meio de seus dotes mediúnicos ergueu um império de “fé, amor e caridade” — divisas de sua organização —, ao mesmo tempo que administrava uma rede subterrânea do crime. Amealhando, entre suas atividades de médium, extorsões, assassinados e cobrança de taxas a seus “protegidos”, João Teixeira Faria, ou melhor, João de Deus, tem como seu calvário mais conhecido o estupro de centenas que buscavam ajuda espiritual. Esta é a história de um reduto esquecido pela poeira que foi alçado ao status de Terra Santa.

E as cifras da Casa de Dom Inácio de Loyola, “A Casa”, assim conhecida pelos locais, falam por si só: R$ 1 milhão no faturamento líquido do centro com a venda de pedras, remédios espirituais e outras bugigangas de fé; inauguração de hospedagens de três estrelas, fomento de excursões e roteiros turísticos em inglês, francês e alemão, chegada de barraquinhas de sorvetes e smoothies de açaí orgânico com linhaça. E, claro, uma relação promíscua com o Poder Público e as Forças de Ordem.
Talvez essa última parte ajude explicar a forma imperial como o arauto divino tenha comandado um reino do crime cujo portfólio envolve extorsões e assassinatos por décadas, sem muitos problemas. No entanto, é difícil, pelo menos, em primeiro relance, entender por que centenas, para não dizer milhares, de mulheres, jovens e crianças, permitiram o abuso indiscriminado de seus corpos e mantiveram o voto de silêncio por tanto tempo. É aí que entra a faceta mais fascinante, e ainda sim, perturbadora de João de Deus: todos que estavam ali acreditavam que poderiam ser curados.
É certo que o mito de João de Deus era construído com grande cautela e persistência do mandatário d’A Casa. No entanto entre reportagens sensacionalistas, biografias encomendadas, testemunhos fraudados, encomendadas a dedo, desvelados com afinco por Felitti, somou-se uma chancela geral sobre os poderes sobrenaturais de João Teixeira, principalmente por meio de celebridades das telinhas e do Congresso brasileiro; e um empurrãozinho de uma desconhecida apresentadora norte-americana chamada Oprah. Em outras palavras, não era só de remédios santos ou turistas gringos de que vivia A Casa; para manter o mito de João de Deus — ou John of God — vivo, a presença de João Teixeira Faria entre socialites e influencers era um must.

Contudo, isso não explica por que, milhares de fiéis disseram “amém” a mais de quatro décadas de sucessivos estupros a menos de 300 metros onde ocorriam as sessões de cura. É aí que desponta um dos grandes trunfos da narrativa d’A Casa, que não apenas traz à tona depoimentos de mulheres abusadas pelo médium, mas revela uma cumplicidade geral e irrestrita de funcionários do centro a seguidores leais em estratagemas da seita. E mais, coloca sob a perspectiva da vítima — bem como à maneira do movimento #metoo — o fardo da culpa e peso da vergonha de denunciar uma das maiores celebridades religiosas do País.
Não que faltassem relatos, testemunhos e denúncias criminais contra João de Deus. As sobreviventes, assim chamadas as que conseguiram escapar do jugo do médium, relatam com detalhes horripilantes as lembranças dos momentos com o curandeiro e de como suas vozes, por mais alarmistas e exasperadas fossem, eram sempre abafadas e caiam no esquecimento. “As pessoas sabiam. Muitos queriam não falar porque tinham medo de perder o emprego. E alguns por medo mesmo. [Se] você vai denunciar um cara desses, precisa temer pela própria vida”, conta um ex-funcionário d’A Casa que relatou ouvir gritos de socorro dentro da sala particular de João Teixeira.
Além das mordaças sociais, econômicas, políticas e grande medida, coercitivas dentro e fora das dependências mediúnicas, falar sobre o lado sombrio do curandeiro, representava transpor a cortina de fé. Vítimas e testemunhas dos poderes de João contam que, do alto da cadeia de estupros, charlatanismos e favores espirituais, o médium conseguia passar incólume, apoiando-se na crença e fragilidade daqueles que o visitavam. “Você está lá disposta a acreditar em uma coisa que é misteriosa, que não é normal. Está todo mundo de boca aberta o dia inteiro, vendo cura atrás de cura. Isso cria uma desconfiança é, como se todo mundo ali compartilhasse um segredo que o mundo ainda não sabe. Um milagre. E ele abusava dessa confiança”, explica uma das sobreviventes.

Marina Adorno /Correio Braziliense
Em resumo A Casa, traça um retrato fiel da ascensão e da queda de um dos médiuns mais falados nos últimos tempos. Alternando capítulos entre passado suntuoso e presente em ruínas — para nós, no grisalho ano de 2019—, Felitti mostra, mais uma vez, a autoridade irremediável de um relato jornalístico aliado a um texto polido, sóbrio e aberto à livre interpretação do público e seus questionamentos — se é que existem. Mas para aqueles, como eu, que se perdem na miscelânea de personagens, lugares, entrevistas, durante a leitura, o livro também conta com um índice remissivo, que embora não substitua um acompanhamento atento do livro, ajuda-nos a aproveitar a leitura em suas múltiplas camadas de crime, fé e poder em Abadiânia.

Livro: A Casa: a história da seita de João de Deus
Editora: Todavia/2020
Preço: R$ 64,90/42,90
Publicado por André Vieira
Jornalista gaiato e poeta-menor. Escrevo pequenas notas e algumas reportagens quando a missão vem à baila e engano — bem — na arte milenar do hai-cai fixo. Não gosto que cebolas toquem no purê de batatas. E sim, amigos, é bolacha e não bixxcoito. Ver todos os posts de André Vieira