Ramon Amorim

Créditos da imagem: Santiago Lemus, Persistences, 2016.
Publicado no ano de 2012, o romance Mamãe me adora, de Luís Capucho, pode se enquadrar naquilo que o pesquisador Alexandre Nunes de Sousa chama de “narrativa pós-coquetel”. O período de lançamento da produção a situa mais de uma década depois do advento da consolidação da terapia antirretroviral (TARV) como a conhecemos hoje, formada por diversos medicamentos utilizados em conjunto.
A TARV, desde a sua consolidação, tem sido vista, dentro e fora das produções literárias, como a tecnologia mais efetiva para o controle do HIV no organismo e, consequentemente, para a diminuição dos casos de aids. Como ainda não há uma forma definitiva de erradicar o vírus e a doença, essa terapia é o que mais próximo há de uma cura. Esse ponto de vista que toma o campo biomédico (e farmacêutico) como salvador, porém, não é unanimidade. A discussão sobre o ônus da adesão ao tratamento disponível tem sido comum em parte das narrativas sobre o tema.
Se nos primeiros anos da oferta dos primeiros medicamentos como terapia para o adoecimento em decorrência da evolução do HIV no organismo, a principal reclamação se centrava nos efeitos adversos ocasionados pelos componentes dos remédios disponíveis, hoje há outras questões que emergem em relação ao manejo da TARV, como a dependência do paciente a essa única opção de tratamento que acarreta efeitos colaterais penosos.
Os efeitos adversos ocasionados pelos medicamentos utilizados são realçados no decorrer de Mamãe me adora. O narrador detalha que o “coquetel de remédios para a Aids” causa dores e mal-estar estomacal, vômitos, diarreia, sensação de cansaço, ressecamento da pele e outros incômodos físicos.
Há também outra questão que emerge do manejo dos medicamentos e que está associada à limitação da possibilidade de escolha pelo indivíduo infectado. Se por um lado, no romance, há a certeza de que a TARV foi a responsável pela sobrevivência do narrador e pelo controle da evolução do vírus no seu organismo, por outro, parece que o HIV é mais importante do que o ser humano que o porta. Isso fica evidente quando demandas levadas ao profissional de saúde são minimizadas em decorrência da efetividade do controle do vírus, mesmo que isso signifique ignorar outras preocupações levantadas pelo paciente.
De outra vez, amedrontado com os efeitos colaterais dos inibidores de protease (o tenebroso Crixivan), que ao impedirem a reprodução dos vírus HIV, redistribuem a gordura do corpo, concentrando-a no tronco, perguntei à médica se meu rosto não estava afinando, se as minhas faces não estariam ficando muito cavadas.
Ela respondeu:
Sim, um pouco. Mas isto é porque você está envelhecendo. Quantos anos você tem?
– Tenho 36.
– Então?… – e mudou de assunto. (…)
Imagino que para ela, era necessário, apenas, que me mantivesse vivo.
Mesmo sendo o único método efetivo para o controle do HIV no organismo, e isso é ponto pacífico nessa discussão, não se pode perder de vista que TARV é também uma forma de controle dos corpos. O horário rígido de ingestão dos medicamentos, sua necessidade de incontáveis e regulares exames e consultas não deixam de ser uma forma de submissão a um controle da existência desses sujeitos, tudo em nome do combate ao vírus, independentemente do quanto isso custe para esse sujeito.