Olá amigo (as),
Comecei a compartilhar trechos do livro Barba Ensopada de Sangue do escritor Daniel Galera no blog, porém devido à extensão do livro acabei desistindo. Recentemente ganhei de presente mais um livro do mesmo autor (Até O Dia Em Que O Cão Morreu) e, após essa leitura, resolvi então fazer comentários sucintos dos dois livros e expor minha opinião.
Vou começar pelas semelhanças existentes entre os romances. Embora suas histórias sejam bem distintas, há semelhanças entre eles que talvez demonstrem o perfil do autor. São elas: as primeiras páginas descrevem o final da história, em momento algum é mencionado o nome do personagem principal, o personagem principal vive afastado da família e evita relacionamentos com maior envolvimento, ambos os personagens optam por uma vida “alternativa”, nada de trabalho formal, vivem com pouco dinheiro e sem nenhum conforto, e sempre há um cachorro envolvido na história.
Barba Ensopada de Sangue conta a história de um professor de educação física que, ao visitar o pai durante uma conversa, fica sabendo que seu avô teve uma morte intrigante em Garopaba e que na verdade nunca se soube exatamente como ele morreu. Mas o pai na verdade o chamou para lhe contar que está com câncer e, não suportando a ideia de aguardar pela morte, admite que vai se matar e pede ao filho que mande sacrificar sua cadela Beta para que ela não sinta sua falta. Após o suicídio do pai, o filho fica com a cadela e vai para Garopaba em busca da história de seu avô, da história de si mesmo…
Em Até O Dia Em Que O Cão Morreu ele fala de uma história bem menos complexa. Um jovem de 25 anos, formado em Letras, sai da casa dos pais e aluga um apartamento no centro de Porto Alegre. Sem emprego fixo, ele vive da ajuda dos pais. Encontra um cachorro na Praça da Alfândega, o leva pra casa e, embora tenha compaixão pelo animal, o trata com certa indiferença. Só lhe dá um nome porque Marcela, a modelo fotográfico que conheceu numa festa, insiste muito. A resistência em estreitar seus relacionamentos em geral é posta à prova quando Marcela revela que tem um câncer.
O que admiro no texto de Daniel Galera é a forma descrever sensações, lugares, pessoas. Fica fácil para o leitor sentir, enxergar e se imaginar no ambiente da história.
[…] Há manhãs em que ele esquece de como foi parar ali e de qualquer ambição modesta que possa ter e sente que no fundo não há nada a desvendar ou entender a qualquer custo. Manhãs como a manhã nublada em que senta em frente à janela de casa com a cachorra ao lado e perde tempo olhando o vento nordeste furioso agitar a água que está entre o azul e o verde, sem reflexos, como se vista por um filtro polarizador. As ondas explodem nas pedras em leques de espuma branca como merengue e os pingos grossos molham seus pés e espalham um perfume de sal e enxofre.
(Barba Ensopada de Sangue, 2012)
[…] Agora sim, agora vou voltar para casa. Agora pode chover. E choveu mesmo. Passava do meio da tarde, e um temporal filhadaputa caiu sobre a cidade. Corri pra uma parada de ônibus, uns trinta metros na chuva e eu já estava encharcado. Comecei a soluçar, e cada soluço causava uma dor leve abaixo do peito. Dentro de uma hora eu estaria em casa, pensava, era só isso que eu queria. Acendi um cigarro e meu ônibus chegou depois da segunda tragada. Rios de água escurecida deslizavam pelas sarjetas. Bueiros se abriam por toda a parte, o asfalto gretava. A noite chegava mais cedo devido às nuvens grossas. O trânsito parou, e naquela mistura de crepúsculo, temporal e noite, as lanternas vermelhas dos carros e as luzes verdes dos semáforos brilhavam com uma intensidade fora do comum, um bonito festival pros meus sentidos ainda atordoados pela anestesia. Os pedestres se protegiam como era possível. Guerreando com guarda-chuvas, se amontoando debaixo de marquises e paradas de ônibus, alguns poucos enfrentando a chuva com a resignação de quem sabe que vai se molhar de qualquer jeito.
(Até O Dia Em Que O Cão Morreu, 2007)
Mas o que não suporto é a “sacanagem”. Em Barba Ensopada de Sangue, por se tratar de um romance maior, mais complexo, a baixaria não grita aos olhos, mas em Até O Dia Em Que O Cão Morreu toma uma proporção imensa frente à breve história. Não é moralismo da minha parte, mas não admito o texto que rebaixa a mulher, como um objeto, como um lixo. É o mesmo que repudio em alguns textos de Arnaldo Jabor como já me posicionei antes, e olha que eu gosto dele, hein! Mas enfim, como Jabor mesmo já disse no tempo em era cineasta na década de setenta, para atrair o público ao cinema o filme tinha que ter sacanagem…
Letícia Portella
15/05/2014