Não percebeu ainda que tudo vira linha de produção? Produzir, produzir, produzir. E bater meta. Uma atrás da outra. Sem parar. Mais uma. Manda. Outra. Pode vir. Conseguiu?
Maria Paula Curto*

Acordo umas 4h da manhã, super apertada. Quase fui correndo para o banheiro, mas me seguro. Tenho medo de bater a canela na porta do armário, como no outro dia. Por que a porta fica aberta? Para circular o ar e evitar o mofo. Não adianta muito, mas sigo tentando. Faço litros de xixi. Meu Deus, por que tanto? Foi a porra do suco. Quem mandou tomar suco de melancia no jantar? E logo três copos! Agora, segura a cabeça de sono enquanto espera a cachoeira sair. Que alívio. Volto para a cama e Lena continua com a cabeça no travesseiro. Nem se mexe. Parece até que a cama é dela. E deve ser mesmo. Eu tinha me prometido nunca mais deixar cachorro dormir comigo. Quem disse que eu aguento? É só um rabinho sacudir e eu já me derreto toda. Tão idiota! Ainda bem que essa idiotice valha apenas com os peludos, senão, já era. Ou será que já foi e eu nem me dei conta? Agora, o difícil vai ser dormir novamente e deixar de fazer a lista de TO DO´s do dia seguinte. Eu devia ter marcado logo a médica. Preciso ver se aquela microcalcificação não significa nada mesmo como diz o Google ou se tem algo por trás. Será? Melhor saber logo. Amanhã eu ligo, sem falta. Vou anotar aqui para não esquecer. Estico o braço para pegar o celular e esbarro na garrafa d’água. Vou beber um pouco. Me deu sede. Eita, vai me dar vontade de fazer xixi de novo. Droga. Desse jeito, não vou dormir mais. E amanhã tem um monte de reunião. Deixa eu dar uma olhada na hora. Cadê meu celular? Ah, está ali atrás do Kindle. Preciso terminar a leitura de Afetos Ferozes para o clube de leitura. Será que está com bateria? 14%. Melhor botar para carregar. Abro a gaveta. Não, não é esse. Esse também não. Onde será que eu enfiei o carregador do Kindle? Ah, tá lá no fundo. Tô com preguiça de levantar. Vou trocar o do celular que já tá carregado. Pronto! Nossa, já tem quase meia hora desde o xixi. Vou dar uma olhadinha rápida no e-mail. Bem rapidinha. Hummm. O curso de milhas parece interessante. Amanhã leio com calma. Depois de marcar a médica. Amanhã. Com calma. Um monte de anúncio da Petlove. Basta comprar uma vez e eles enchem sua caixa de e-mail com promoções imperdíveis. Não dá para ter promoção imperdível todo santo dia, né moço? Vou me “desinscrever”. Assim, reduz essa quantidade de e-mail de propaganda. Chega. Como assim, não consigo desinscrever? Ah, a internet falhou. Para variar. É isso que dá morar em prédio antigo. A parede é tão grossa que nem sinal de Wi-Fi passa. Queria ser como essa parede. Preciso dormir, isso sim. Tá clareando. Tem outro e-mail aqui. Deixa eu ver. Curso de culinária vegana. Preciso aprender a fazer algumas coisas para reduzir a carne. Frango então nem pensar. Por que fui assistir àquela série? Melhor ter ficado na ignorância. A ignorância, decididamente, é uma bênção. Agora é tarde. Cada garfada e eu me sinto uma assassina em série. Sem ódio. Só culpa. Muita culpa. Como eu não percebia? Era óbvio que os boizinhos não estavam pastando livres nos campos das planícies do MT, né idiota? Muito menos as galinhas. O que eu queria? Que elas morassem em coberturas duplex de frente para o mar? Faça-me um favor Maria Paula. Acorda pro mundo. Se até gente é objetificada imagine bicho. Coitadinhos deles. Deles. Deles? Preciso dormir, meu Deus. E você aqui, na zona oeste de Pinheiros achando que o mundo é cor de rosa. Só na sua santa ingenuidade. Ou será covardia? Não percebeu ainda que tudo vira linha de produção? Produzir, produzir, produzir. E bater meta. Uma atrás da outra. Sem parar. Mais uma. Manda. Outra. Pode vir. Conseguiu? E lá vem mais uma. Tá difícil? Corre atrás, bobona. Vai lá. Segura peão!!! Rodeio não, que lembrei da vaca de novo. Tadinha. Tadinha dela. Tadinha de mim que não dormi e vou passar o dia igual zumbi. Esse negócio de menopausa não é para amadores não. Eu dormia tão bem. Agora, toda noite é isso. E a Lena ali, dormindo tranquilinha. Na próxima encarnação, quero nascer Lena. Mas ter a MP como dona, claro. Que deixa dormir na cama toda esparramada e ainda dá cuscuz de milho com manteiga no café da manhã. Ah, e por favor, manteiga, viu? Nem me venha com margarina que eu viro a cara. Com total desprezo. Igual ela está fazendo agora. Dando na minha cara com luva de pelica. Quem mandou nascer humana? Agora, lide com a insustentável leveza do seu ser. E com essa certeza do fim. Ai credo, como a gente consegue. Definitivamente, vou requisitar minha próxima existência canina. Muito melhor. Olha isso. Tá até sonhando. E abanando o rabo. E eu aqui. Tentando dormir nessa aceleração máxima. Deixa eu ver. Sete e meia já? Melhor levantar e tentar começar a realizar a lista de tarefas do dia. Assim, não perco mais tempo. não posso perder tempo. Não posso. Fui!

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP