De tão azul, o céu parecia pronto para derreter, como um sorvete pinta boca da praia. Lembrança de outros carnavais. O céu nublado do dia de ontem, em São Paulo, é um sinal dos tempos. Todos andam apagados pelas ruas sinuosas do centro. Lábios fechados, mascarados. Máscaras entre o eu e o universo/existência/tudojunto. Existe uma coisa que eu quero que você saiba, sempre que te vejo peço pra sair. Minhas bochechas denunciam que o dia está 40 graus. Mas hoje, porque ontem foi nublado. 

Quando setembro vier, te vejo caminhando na esquina de casa, de frente para aquela padaria. Rua do Hospício. Era lá que morava. Sujeito não muito alto, cabelos loiros e olhos tristes. O céu derretia. As estações do rádio arranhando. Uma música esquecível, os escapamentos dos carros marcando o vão dos ruídos. Você tem o nome do seu avô. Me disse isso e disse que não gostava. 

Eu escrevi duas coisinhas nesta manhã. Ainda não estão prontas para o mundo. Embrulhar num saco de pão e mandar para dentro da gaveta. Aquelas coisinhas feias que vão se endurecer lá dentro. Como a nossa vida em conjunto. Ralo pão duro. Você se lembra do dia em que descobriu que eu existo. Foi um oi meio apressado. Onde? Só podia ser na rua do Hospício. E foi. 

Finalzinho de agosto, tombo, sapato grande, caem todos os vidros de leite e os as laranjas que rolam a ladeira. Você saía do prédio do lado da padaria. Viu a cena no momento mais constrangedor. Parado ali no meio da rua, o palhaço, em cacos. Eu não era tão expansivo. Mas você olhava e tive vontade de falar. 

E como as coisas soam bobas quando são ditas pela primeira vez. Achava-me o mais ridículo dos homens. Tinha tudo para dar errado. Até que um dia você concordou e nós saímos juntos. 

Era quase setembro e lembro de ter atrasado uns cinco ou dez minutos. Seu cabelo curto, diferente daquele dia, seus braços, cabeça, nariz, olhos, o bigodinho. Seu jeito manso de dizer que não gostava da média da padaria e que café era passado. Falava de um jeito ameno, não como o céu que derretia, mas como o vento que arrastava as fichas soltas do balcão. 

Andamos por uma parte da cidade no esquema pergunta e resposta, pergunta e resposta. Você me deu uma deixa, numa esquina escura. Olhei e sorriu. Deus. Não encarei. Você não saberia dizer o quanto aquilo foi importante. Nem eu. Sentamos em um banco vazio no meio de um parque abandonado e contamos, uma a uma, cada nuvem peixe ou sorvete. 

Algumas horas, uns olhares, perguntas e fôlego, risinhos, umas coisas, poucos toques. Nenhum propósito. Éramos tímidos. Éramos dois vagueando, sem ritmo, tino, na espera de setembro. Porque quando setembro vier, espero que você me chame pra dançar. Depois que o dia azul escorrer de volta para os seus olhos ou meus sapatos novos chegaram pelo correio. 

Quando setembro vier, eu prometo, incansável, que vou pedalar pela cidade e refazer o itinerário daquele dia. Antes disso, vou cair de bicicleta e, sem medo, sorrir para a lembrança daquelas horas passadas à sombra do outro. Em busca da próxima palavra, sem pensar direito no que dizer, sentir. Sem esperar o tempo terminar, a deixa chegar, de mansinho, para ver se as nuvens nos ultrapassavam de uma vez.

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Publicado por Matheus Lopes Quirino

Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino