«Nasci em 1885 na Beira Alta, na parte da meseta castelhana que entra por Portugal dentro. Eu deixei uma pintura breve dessa região austera no romance Maria Benigna:
Tudo aquilo, tempestades de penedos suspensos de morros e encostas, plainos desolados em que cresce uma rabugem de mato, e a que nem os rebanhos de reses magras e pequeninas nem o renovo da Primavera conseguem animar; pinheirais vergados para nascente como hordas em marcha; solo sáfaro e condenado a dar fruto; terra onde os medos andam à solta e as ruínas guerreiras e monásticas ensombram a cada passo os horizontes; brutalidade e melancolia, rijeza e desespero, perspectivas abstractas e um sentido da vida muito concreto -- eis a Beira Alta, eis o plasma medonho e admirável de que Valadares é feito.
Curvando-me sobre o passado, não encontro essa misticismo -- divagação, melancolia, sonho, desejo -- que parece preceder e acompanhar toda a vocação. Creio que, neste assunto de arte e de literatura, deitámo-nos à água como os patos.»
