«O meu primeiro livro, contos, teve por título, Jardim das Tormentas. Com isso evocava Mirbeau que admiro ainda. O principiante, à procura de um título, acaba muitas vezes por escolher um, que não é senão o pobre eco, ou a má adaptação do título de uma obra célebre.

Editado em Paris, em 1913, foi saudado pela crítica como um bom presságio. Na realidade, anuncia a minha obra. Revela os meus gostos e as minhas tendências sociais, as influências sofridas, os assuntos que já me atraíam e que, com a continuação, viria a tratar. Foi a première do meu teatro de fantoches. O homem infeliz, o eterno sofredor e por outro lado o homem erguido acima da sua condição por um golpe da sorte ou da vontade, esses tipos principais na minha obra, fazem aqui a sua aparição. Já aí me mostro apaixonado da natureza, à maneira dos impressionistas. A natureza goza, nos meus livros, de uma insuspeita personalidade. Para mim o homem só conta no seu meio, tanto físico como social. Quero-o evolucionando no cenário que lhe é próprio. E cada ser ou cada coisa à volta, um amigo, um cão, uma árvore, desempenham o seu pequeno papel, têm pelo menos importância documental.

Podia-se, facilmente, assinalar neste livro, além da influência de Anatole France e um pouco de Barrès, a de Tolstoi e dos portugueses Fialho e Eça. Neste «jardim» circulam, com efeito, os vagabundos e os sonhadores que se encontram em todos os meus romances, mas ao lado desta gente, que professa um desprezo plausível pelo Mundo, há aqueles mais numerosos, que trincam avidamente a maçã da vida. Esses são projecções do meu eu. Tanto amo a vida nos seus prazeres eternos, aqueles que já conhecia o nosso pai Adão, a boa mesa, o amor, a ociosidade depois do trabalho, como nas belas coisas que nos oferece o progresso, a maquinazinha com que escrevo os meus livros, e o automóvel que me permite transportar-me para a minha casa serrana. De resto, ama-se a vida com certa precaridade. É uma espécie de paludismo. Hoje, pela sombra que se espalha sobre o Mundo, pela baixeza dos preconceitos de que a animalidade humana está cada vez mais envenenada, que valor se pode dar à vida!»

Mirbeau.jpg

Octave Mirbeau

(Trévières, França, 16 de Fevereiro de 1848 — Paris, 16 de Fevereiro de 1917)