«O estado de graça é privativo daqueles que o dedo de Deus escolheu para gozar de sua presença eterna. É verdade que tudo tem um princípio. Como foi o meu? Recordo-me que o professor de português, um bom clérigo que estava encarregado da correspondência, em latim, da diocese com o Vaticano, deu certo dia este tema para composição: diálogo entre uma abelha e um piano. Era Rambouillet requintado! O meu trabalho foi lido na aula e elogiado pelo velho eclesiástico como uma revelação. E foi assim que um rapazito se deitou ao pego!
Em geral a nossa formação é francesa. O espírito português desenvolve-se com mais ou menos carácter, mas a placenta é de essência francesa. As preocupações da França são as nossas, as suas paixões apaixonam-nos, e e as causas que defende comovem-nos. Talvez que a França política não encontre no Portugal de hoje a mesma nata de sentimentos, mas a França cujo génio se projecta sobre os séculos, essa, é sempre objecto de culto entre nós. Lemos os seus autores desde os mais antigos até Sartre e Aragon, e os seus pintores, os seus escultores, os seus sábios, gozam em Portugal da maior popularidade.
Anatole France foi durante muito tempo o meu autor preferido.» ...

Anatole France
(Paris, 16 de abril de 1844 - Saint-Cyr-sur-Loire, 12 de outubro de 1924)