
«Folheando com mão domingueira as Causeries du Lundi, o que tantas vezes nos sucede, obra-prima aquela de crítica literária, até hoje insuperada pela clarividência, altitude e extensão, em qualquer dos povos civilizados que dão lugar de honra ao trabalho mental, caímos sobre o trecho que tem este título: De la retraite de MM.Villemain e Cousin.
Estes dois professores da Faculdade de Letras haviam requerido a aposentação, com certo ar despiciendo e tom de quem se julga insubstituível, e Sainte-Beuve, do alto da sua tribuna no Constitutionnel, começa por lhes dizer: "Por muito dispostos que nós estejamos a saudar e a honrar o que cessa, não esqueçamos esta lei superior das coisas: não há um só indivíduo que seja essencial neste Mundo, do mesmo modo que não há uma geração indispensável; a Natureza é fecunda e, depois de qualquer perda, por muito sentida e o mais irreparável que pareça, tudo se refaz breve prazo e tudo recomeça como dantes."
Voltando-se para os leitores, enceta então o seu estudo como se pronunciasse: vamos lá ver quem são estes dois figurões! E dá-nos uma página do melhor estofo literário, cortada no mesmo padrão do Júlio César de Shakespeare, quando António vem ao Fórum com o fim solapado de obter do povo a condenação de Brutus, o seu ídolo e propugnador das suas liberdades. Nunca o espírito foi mais infernalmente subtil e ardiloso, trate-se de advogado à barra dos tribunais, de orador nas Câmaras, ou de diplomata à mesa verde das Chancelarias. E ante a palavra destra, vê-se a massa popular, em levedação acelerada, tomar forma como a greda nas mãos de um estatuário, revestir fisionomia e animar-se de um fôlego tão contrário àquele de que parecia imbuída e, diremos, constituía a sua respiração própria. E a primeira sensação do leitor é de admiração para a alma criadora e sublime que modelou aquela página de uma argúcia digna de Aristóteles e de uma solidez de bronze.
Depois, para lá do nome do autor, o espírito magnifica à literatura, à vitória do logos sobre tudo o que a política, a moral, o próprio sentimento pareciam ter construído de eterno.»...

Autorretrato, 1929 José Tagarro (Cartaxo, 1902 - 1931)