(...) «De forma que, com capcioso engenho, condescendendo aparentemente com a opinião, a vai mirando com os novos conceitos que sabe incutir sobre o carácter e o porte de César. A certa altura, o orador toma-se de uma emoção fingida, ou tão superiormente fingida que a própria voz se embarga e só depois de um violento esforço consegue retomar a palavra. O auditório pouco a pouco vai aquecendo, ondulando, exaltando-se até comungar os sentimentos do tribuno. E o trecho maravilhoso termina com este aparte do orador:
  -- Génio do mal, eis-te desencadeado. Segue o teu caminho!
Esta arte consumada dos contrastes e sinuosa procura dos efeitos encontrámo-la no estudo de Sainte-Beuve quanto aos professores demissionários. Qualquer deles, Villemain ou Vítor Cousin e, por associação, Guizot, seu predecessor na Sorbona e mestre, eram cadaverizações insepultas, brilhantes sem dúvida, mas de um passado revoluto, que teimavam tolher o caminho a outras formas do pensamento e de arte. Gozavam de uma certa notoriedade, e Sainte-Beuve, com insidiosa e lúcida malignidade, adiantando um louvor para lhes infligir duas repreensões, submete-os ao regime de Brutus. Tanto o espírito de Cousin como de Guizot, servis à velha disciplina mental em religião, política, ética, destoavam da larga concepção de arte de Sainte-Beuve, aberta a todos os horizontes.
 "O sr. Cousin -- escreve ele -- traçava deste modo o plano ideal de uma vida de homem de letras: um monumento e muitos episódios. O monumento considera que o fez na sua tradução de Platão; quanto aos episódios, trata dele. Estudos amáveis os seus, inofensivos, em que o nosso sorriso tem de juntar-se à nossa admiração e ao nosso aplauso! Um dia há-de gravar-se por debaixo do seu busto, como se traduzisse um epigrama da antologia: Pretendeu fundar uma grande escola de filosofia, e amou Madame de Longueville".
Guizot, com os seus respeitos desmedidos pelo pretérito, o seu espiritualismo tímido, feito de encomenda, dir-se-ia, para as classes médias, era-lhe soberanamente odioso, e desarticula-o em suas facetas de homem impositivo, contraditório, topa-a-tudo.»...

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Charles Augustin Sainte-Beuve
 (Bolonha do Mar, 23 de Dezembro de 1804 – Paris, 13 de Outubro de 1869).