«A minha obra contrasta com as condições em que foi realizada. O meu livro, Terras do Demo, o mais «terra-a-terra», aquele em que camponeses e animais vivem uma vida primitiva (estabeleço para os animais do Pai do Céu um estado civil como Jules Renard) compu-lo no meu gabinete D. João V, sobre uma mesa de boa talha, cercado por gravuras e quadros, de um estimável e bem agradável conforto. Em compensação, Filhas de Babilónia, cujo tema é do mais requintado, foi escrito numa porta deitada sobre dois troncos em x. Esta dualidade de existência e de inspiração, devo-a a um diabrete astuto que me acompanha desde o berço e do qual espero fazer um herói de romance para me vingar. Afinal é a vida outra coisa? No meu gabinete tenho diante, no muro da esquerda, um Cristo, acentuadamente gótico, contraído pela dor. Um pequeno Sileno, em mármore de Paros, que me trouxe da Grécia um cônsul amigo dos homens de letras, ocupa uma prateleira à direita. A minha vida literária oscila assim entre o espiritual e a realidade.»

Jules Renard
(Châlons du Maine, Mayenne, 22 de Fevereiro de 1864 - Paris, 22 de Maio de 1910)