Um poema um pouco triste, mas que é também uma homenagem. Vão entender e, espero que gostem.
Fundo
Permite-me, menino,
Posso entrar no seu olhar?
Posso ver, menino
O que é que estás a pensar?
É um olhar tão fundo,
Este que deitas ao mar,
Que tenho medo que das pedras
Tu mates o teu pesar.
O que tens tu, menino?
Que não te faz deixar
Correr pela praia descalço
A meninice do teu olhar?
Que te fizeram, criança!?
Grita! Diz do que te culpam,
Pois vejo dentro de ti
As emoções que lutam!
No fundo do teu olhar,
Brilha a doçura da infância
Presa com as correntes da guerra,
Da maldade e da ganância!
Não te deram uma arma,
Mas mataste os teus brinquedos,
Quando não sabias como
Batalhar com os teus medos.
Não te deram uma bomba,
Mas puseram-te nas mãos,
A bandeira em que embrulhaste,
Os corpos de teus irmãos.
Elsa Filipe, 2023