Nestes dias não posso deixar de escrever sobre as crianças que estão na guerra. Que combatem de armas na mão... que matam e ferem sem terem brincado aos polícias e ladrões. Crianças que em vez de irem para a escola, foram obrigadas a combater. Sem o colo da mãe ou o abraço do pai. Este poema estava guardado, mas hoje resolvi publicá-lo aqui, para que estes meninos não sejam esquecidos.
Criança-soldado
Nascido sem linho nem contas
Que lhe pesasse o destino
Vendem-no quando a fome aperta
Escolhendo o mais forte menino.
Em casa mais uma boca
Ali mais um soldado
Tem na pele o medo à solta
E um olhar desconfiado.
A arma pesa-lhe tanto
Mas depressa vai aprender
Que não será o seu pranto
A salvá-lo de morrer.
Limpa as lágrimas, teimosas
E ajeita a arma brilhante
E das suas mãos ansiosas,
Sai o disparo, fulminante.
Cai por terra, um rapaz
A ele igual, o guerreiro,
Só diferente por incapaz
De ter disparado primeiro.
Foge para o meio do cerrado,
Sofre por matar um irmão
Sabe apenas que esteve errado
É o que lhe sai do coração.
O seu corpo baloiça,
As mãos trémulas em perdão,
Mas sem haver quem o oiça
Cai de rastos no chão.
Frémito silêncio, engole
O seu choro, mal entendido
Porque ali não há quem console
Um menino arrependido.
Devia estar a brincar,
Ou a rir com os irmãos,
Em casa havia fome
Mas sem armas nas mãos.
Soldado desde cedo
Dali em diante matou
Tantos, que aquele mancebo
Depressa se habituou.
Mas quando no mato à noite
O silêncio se ergue devagar
Volta a chorar o menino
Sem ninguém o abraçar.
Nem o pai que já morreu
Nem os irmãos, compreende,
Nem a mãe que o vendeu
Já nem a esperança se acende.
Um dia, zunem balas ali
Atacam a sua posição,
Abre os braços e caminha
Para a morte ou rendição.
Elsa Filipe, junho de 2024