Obras Inquietas – 14. “Mulher chorando” (1937), Pablo Picasso
artes plásticas, finitude, emoções, Pablo Picasso, crítica de arte
Na minha coluna no “Obras Inquietas” da semana passada, falei de “Mulher chorando” (1937), quadro de Pablo Picasso que mostra a sua amante e musa Dora Maar. O pintor espanhol adorava ver a mulher chorando e, assim a provocava até que ela enfim cedia, ocasião em que ele a pintava. “Nunca consegui vê-la, nem sequer imaginá-la, a não ser chorando”, disse Picasso na sua biografia. Um quadro feito de lágrimas e de angústia. Nada tão atípico: afinal, quem de nós nunca fez alguém chorar de propósito? Boa leitura. “Mulher chorando” (1937), Pablo Picasso Quantas lágrimas são necessárias para que um lamento se transforme em uma enxurrada? Não existe medida correta para algo virar dor ou tornar-se desespero. A mulher se preparou para uma festa: colocou seu melhor casaco, ajeitou o chapéu vermelho sobre a cabeça, o laço azul destacando-se na moldura dos seus cabelos loiros. Está bonita, elegante, e anseia por risadas, despreocupação e – quem sabe – um pouco de amor, como todos nós. Não sabe ainda o seu destino aterrador de musa. Ela não existe como mulher, mas é um poço de angústia e, naquela noite, o pintor cobiça as suas lágrimas como se fossem os diamantes brotando de uma fonte inesgotável. Ele a provoca. Xinga. Bate. Ridiculariza. A noite, que se imaginava feliz, vira um arrastar de tristeza, uma pedra de Sísifo repleta de calosidades. Enfim, a mulher está no ponto desejado pelo artista, uma panela de pressão prestes a explodir, e as lágrimas azuladas rebentam do seu corpo – flores na primavera -, no início lentas, doloridas, escavando rios em meio à maquiagem outrora festiva, agora virada em um rasgo de dor, e, em seguida, abundantes, largas, infinitas. A mulher pega o lenço e, com o pano amarrotado, tenta conter o fluxo de medo, mas em vão. Na sua frente, o pintor exulta enquanto a esboça, cada vez mais rápido, na expectativa de não perder o capricho de cada gota impregnada de sal que adultera a juventude do outrora alegre rosto. Todas as pessoas que choram são iguais; somos irmãos nas lágrimas. O rosto da modelo se desfaz em um borrão indistinto no qual se mistura suor, lenço, maquiagem e lágrimas, e nós já vimos esse semblante: já fizemos alguém chorar muitas vezes, já olhamos nosso rosto em algum indecente espelho após a passagem da tristeza deixar suas marcas no nosso espírito. O pintor quer que as pessoas pensem nas ocasiões em que choraram e, para isso, usa a mulher sem piedade, para que a dor de um expresse o sentimento de todos, mesmo que ela o odeie, mesmo que ele a faça sofrer, mesmo que ela não queira tal encargo. Nós também somos o pintor – estamos sempre cobiçando que os outros chorem. Portanto, não perguntes por quem a mulher chora, pois ela chora por ti. Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/12/31/obras-inquietas-14-mulher-chorando-1937-pablo-picasso/ Publicado por Gustavo Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo
Texto originalmente publicado em Homem Despedaçado
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