Obras Inquietas – 57. “Retrato de Família” (1954), Dorothea Tanning
Dorothea Tanning, Max Ernst, Surrealismo, Artes plásticas, Papéis de gênero, Crítica de arte
Nessa semana, no “Obras Inquietas”, eu falei sobre um quadro da pintora surrealista Dorothea Tanning, “Retrato de Família”. Dorothea é mais conhecida pelos seus trabalhos literários, que são muito elogiados, mas não se pode esquecer a sua importância para a pintura, arte na qual se destacou desde a adolescência. Na época em que fez esse quadro, ela estava casada com o pintor Max Ernst – cujas obras são mais conhecidas do que as dela – e não consta que se sentisse pressionada como a mulher que retratou. Inclusive é famosa uma entrevista em que Dorothea Tanning afirmou que ela e Max Ernst jamais conversavam sobre arte em casa. No entanto, um poema do mesmo período deixa entrever a mágoa por constatar que o casamento obscureceu a sua arte (bom, Max Ernst deixou a sua mulher para casar com Dorothea, e ela sempre foi vista como a mulher sedutora-destruidora-de-lares, o que acabou se refletindo na apreciação da sua pintura): Many years ago today I took a husband tenderly This simple human gentle act Seen as a hard decisive fact By all who dote on category Did stain my work indelibly I don’t know why that is For it has not stained his Em uma tradução muito livre: Há muitos anos hoje Eu recebi um marido com ternura Este simples ato gentil humano Visto como um fato difícil e decisivo Por todos os que trabalham na categoria Manchou o meu trabalho indelevelmente Não sei por que isso aconteceu Pois não manchou o dele. Boa leitura. “Retrato de Família” (1954), Dorothea Tanning Mesmo ausente, a sombra incômoda do homem se espalha pela sala de jantar, espalhando ordens com a sua onipresença raivosa. Ela diz para a empregada: se vista de forma apropriada, isso aqui não é um puteiro; alimente o cachorro, ele é o ser mais importante da casa; não erga a voz, seja discreta e mantenha a limpeza em dia, mesmo nos desvãos mais improváveis. A sombra fala para os móveis: mantenham a posição em que eu os coloquei, vocês me pertencem e eu controlo a sua vida e a sua morte; não tenham personalidade; não tentem se destacar. Em seguida, a sombra concentra toda a sua atenção na mulher, deliciando-se com a tensão com que a pequena figura se segura na cadeira, os olhos impregnados de um medo palpável que se projeta para o mundo em busca da salvação que não virá: não coma, não desejo que você engorde; não sorria, você não tem o direito de ser alegre sem a minha presença por perto; não fale, você não pode ter voz própria longe de mim para cercear as suas palavras burras e descuidadas; não coloque chinelos ou uma roupa velha, mulher minha tem que estar sempre ajeitada, sempre perfeita; não tenha uma vida ou carreira, pois nada pode obscurecer a minha existência, ainda mais uma criatura ínfima como você. A sombra do homem ausente sufoca a vida da casa, um lembrete constante sobre quem realmente manda na família. Dentro dos olhos cristalinos da mulher, um esgar de terror – sombra fugidia repleta de líquido – tenta escapar, mas ela não foi autorizada a chorar, e tem medo do deboche da sombra, tem medo de que aquilo que chama de amor seja uma prisão dourada, então mantém o corpo teso sobre a cadeira, esperando que a sombra em breve se junte ao corpo do homem de quem está desgarrada – o homem que acabou com a sua luz. Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/03/18/obras-inquietas-57-retrato-de-familia-1954-dorothea-tanning/ Publicado por Gustavo Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo
Texto originalmente publicado em Homem Despedaçado
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