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Out22

Elsa Filipe

Quando se fala em grandes escritores clássicos, não se pode deixar de parte Charlotte Bronte (1816-1855). "A paixão de Jane Eyre", uma das poucs obras que editou, chega-me através de uma edição datada de 1978, do Circulo de Leitores.

Uma verdadeira história de amor, mas que me surpreendeu pela força de caráter que Charlotte atribuiu à personagem principla. Uma órfã, criada por uma tia, num lar sem amor onde os primos a maltratavam, manifesta logo desde criança uma grande tendência para a busca pela sua autonomia e independência e pela busca da verdade, conceitos à época mal interpretados como falta de reconhecimento e má indole. Esta menina acaba num lar onde cresce amparada pelos bons costumes e por uma exigente educação e pelo mostrando uma enorme resiliência e adaptabilidade a cada desventura que lhe sucede. Jane Eyre é uma jovem determinada, que rompe com os costumes da época.

No livro, várias são as vezes em que esta jovem mulher, corta com a segurança de um lar para ir em busca da insegurança da sua própria vontade e liberdade, não se deixando amarrar sem ser de sua própria vontade em nenhuma relação, mantendo sempre o auto-controlo e dando-se ao respeito em qualquer situação, não exitando, mesmo assim, em discutir de igual para igual e com sabedoria sobre diversos temas do dia a dia, da cultura e da sociedade da época. 

Neste livro, apesar de transparecer nas descrições a diferença entre as ordens sociais, não se encontram registos da forma de governação, o que por um lado pode querer dizer que não se podia ainda assim escrever sobre temas tão copncretos, mas por outro que essa informação não traria qualquer benefício à história. 

Em várias ocasiões, o nome das terras está também suprimido, substituído por reticências ou apenas iniciais do nome do local, o que dificultaria se se quisesse localizar a narrativa de uma forma mais concreta geograficamente. 

Apesar de leitora assídua e de gostar de diversos tipos de escrita, não me tinha aventurado por este tipo de literatura (salvo talvez nos romances mais infantis de Edith Nebit ou de Eleanor H. Porter. A história está muito bem escrita, apesar de na tradução, para alguns leitores que não dominem a língua, se poderem perder algumas frases em francês que não foram traduzidas (salvaguardando que na época, era frequente as escolas na Europa ministrarem o francês, não sendo por isso necessária essa mesma tradução). Descrever o que se passou seria retirar a magia da história, por isso a quem tiver curiosidade aconselho a leitura. Apesar de ser um livro grande, não é muito denso e as descrições estão muito bem feitas, com diálogos bem construídos que interrompem em alguns momentos uma descrição mais exaustiva dos espaços e dos acontecimentos. É um livro que aborda sobretudo os sentimentos, o amor, o respeito e a amizade, mas também o próprio medo perante um deus e uma religião castigadora.