‘Um escritor: quanto maior o grau de subjetividade que alcançar no que escreve, maior será o abismo que construirá ao seu redor. Ele é um demolidor de pontes, ainda que viva sob a ilusão de criá-las”.
(a resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 11 de setembro de 2012, sem a nota de rodapé e o anexo)
Apesar do prestígio geral de que goza a crônica, confesso que nunca fui muito fã do gênero (pelo menos no que tange à disposição de leitura): com raras exceções, dificilmente as leio em seu estado natural (em jornais ou outros tipos de periódicos). No último feriadão, resolvi me obrigar a ler um livro de crônicas mais recentes, que não fosse de algum escritor canônico (Rubem Braga, Paulo Mendes Campos). Escolhi um do jovem João Paulo Cuenca (nascido em 1978), por ter gostado (ainda que o resultado final não faça de todo jus ao ponto de partida brilhante) de seu romance O Dia Mastroianni (2007)[1].
Fico feliz por ter acertado na mosca: os 41 textos recolhidos em A última madrugada resistiram bem ao seu desenraizamento do meio efêmero para a forma-livro. Cuenca sai-se muito bem nesse exercício exigente, com uma precisão e um domínio tais que nenhum deles revela-se fraco ou desinteressante, embora, é claro, possamos preferir uns a outros (e há diversos trechos que foram incorporados à narrativa de O Dia Mastroianni), de acordo com nossas idiossincrasias.
Grosso modo, podemos agrupá-los em três conjuntos: os que abordam situações especificamente cariocas; os que abordam lugares do mundo onde o autor esteve; e os que se originam de uma disposição mais reflexiva. Neste último grupo está aquele que talvez possa ser tomado como o ponto-de-fuga, o sentido geral da coletânea: “O homem de trinta anos”. Ao chegar à proverbial “idade da razão”, o cronista cria um jogo de luz e sombra sobre sua década anterior, suas muitas andanças, seus escritos, jogo que também atinge textos imediatamente posteriores, pois esse homem de trinta se projeta para trás e para frente, para chegar a uma conclusão paradoxal: “…ele se aproxima, não do homem de vinte ou de cinquenta, mas do homem de cinco, do homem relaxado, tranquilo e bem resolvido que era quando tinha cinco anos”. Aquele sobre o qual porventura a professora do maternal tinha escrito (lemos em “O homem de mudança”): “João Paulo apresenta uma capacidade de assimilação muito boa, participando com muito interesse de todas as atividades, apenas se recusando a participar de atividades relacionadas à vida prática…” Aos três anos, ele verifica, “preconizava-se toda uma existência desorganizada, de números conflitos com a realidade e com o limite do cheque especial. Explicam-se a extravagância e a bazófia das décadas posteriores…”
Mas ele (chegando aos trinta) e o gênero que pratica estão submetidos a Cronos, o qual não apenas subjuga o tempo individual (“…À espera de que os minutos se transformem em frase, e as horas em parágrafos—para que não precise mais escrevê-los…”, lemos em “O olhar da dançarina”), mas também o chamado “mundo em geral” que se processa neste novo milênio, muito bem captado pelas lentes argutas, às vezes um tanto blasés e enfatuadas, de Cuenca.
O que mais me encantou em A última madrugada é justamente o encontro do espaço limitado (e o exercício necessário para domá-lo) e esse aspecto difuso, escorregadio e fantasmagórico do tempo, o tempo presente, quer em reflexões mais abstratas, quer em cenas do Rio de Janeiro (na Lapa, no Baixo Gávea, em Ipanema), ou situadas em Paris, Barcelona, Tóquio, Londres ou a improvável Bahilan.
Entre os melhores momentos “cariocas”, pode-se destacar aquele em que uma turminha numa mesa de bar se desassossega perante um casal que se beija ininterruptamente (“todos se entreolham: as atrizes de teatro, os desenhadores destacados, os diretores promissores, a jovem inteligência do Baixo-Qualquer Coisa. E ficam em silêncio sorumbático…”), a descrição da “dinâmica de grupo sob luz estroboscópica”, ou seja, a fauna noturna que procura (meio que no desespero) se divertir nos bares e boates (e que reaparece no igualmente ótimo “Depois do Baixo Gávea”, no qual se sintetiza, de passagem, o que aconteceu na política brasileira, no contraponto da freguesia de dois botequins: “O que um dia já foi uma oposição com ares ideológicos se transformou num antagonismo estéril como o que há entre os extremos da política brasileira. O Hipódromo e o Braseiro, em tempos pós-utópicos, se tornaram dois bares de centro…”). E como esquecer a excelente crônica em que se entrelaçam o momentoso romance de Adriano, então em carreira arrasadora jogando no Flamengo, e a monumental Joana Machado, e as reflexões sobre o amor de Stendhal? E a deliciosa crônica sobre o ano da França? E o belo exercício narrativo que é “Nunca mais Casa da Matriz”?
Entre os momentos mais globalizados, destacaria o que aborda o show do Radiohead em Paris (“Eu não estou aqui, isso não está acontecendo”) e aquele que narra uma noitada em Londres em que todas as meninas se parecem com (mas estão saturadas de) Amy Winehouse (“As bolsas imaginárias”).
E os que “poderiam se passar em qualquer lugar”: a crônica sobre os objetos da mulher (“…coloniza novas prateleiras e pias, até então desabitadas. Às vezes larga para trás de si as embalagens semivazias e diz que não sabe se volta…”), aquela sobre o primeiro verão dos anos 10, aquela (que eu adoro) sobre o homem metrossexual neo-sensível (“…O que está em voga, enquanto metáfora da força sexual masculina, é o vampiro fofo… Esse Drácula metrossexual em breve lixará os caninos no mesmo salão em que faz a sobrancelha—e não será surpresa encontrar por ali alguns dos jogadores da seleção brasileira de futebol, atentamente recebendo as instruções de seus hair stylists”).
Embora Pedro Cassavas, o protagonista de O dia Mastroianni assovie um “hino cívico” sobre “o real caminho da honra: o desperdício”, isso é charme (com os vários sentidos que o termo pode adquirir) do seu autor. Este, não desperdiça nada.
ANEXO- trechos de doze crônicas de A última madrugada:
“O espaço da cama do casal desconhecido nessa primeira manhã é, ainda, terreno neutro. Essa neutralidade tem mais a ver com o tempo que desenhamos sobre os lençóis alheios do que sobre o espaço em si (…) O casal desconhecido, quando começa a se conhecer, esquece que a única eternidade possível é (foi) aquela, da primeira manhã, a última (a primeira, a única) vez em que estiveram realmente ao mesmo tempo no mesmo lugar”. (O casal desconhecido)
“Uma crônica que faça homenagem aos rebaixados na passarela, que preste tributo aos que tiveram o samba derrotado, que dê consolo aos turistas assaltados e esculachados na cidade maravilha. Um alento aos fracos que desistiram da multidão do Cordão do Bola Preta, que tiveram medo da Rio Branco noturna do Cacique de Ramos, que afrouxaram a garganta no único momento que poderia salvá-los do carnaval triste. Uma crônica que tire um pouco do peso daqueles para quem o término do carnaval é sinônimo de nada mais restar, é caldo de fim de feira às margens do precipício, é tristeza e medo pelo que virá no resto do ano. Porque o ano, após o carnaval, é resto. É o pouco que sobra.” (Carnaval já passou)
“E depois é assim: qual a festinha imperdível da noite? Arremessamos perdigotos uns nos outros… em intenso debate, até que se parta para a boa, o evento exclusivo, a boca-livre na casa de fulano da produtora, no prostíbulo subterrâneo da estação ou no estúdio de design onde todo mundo vai estar.
E esse todo mundo, no primeiro verão dos anos 10, vai chegar a qualquer lugar e ganhar uma pulseira de plástico. Não importa onde: um hospital, uma casa de swing, uma boate onde se usa a camisa para dentro da calça, um luau na praia ou um porão azulejado onde uma banda de rock de meninas se exibe para meia dúzia. A pulseira de plástico… símbolo máximo do êxtase autocelebratório do carioca no primeiro verão dos anos 10.” (O primeiro verão dos anos 10)
“Na vertigem do sábado à noite, data-limite para ser feliz até o modorrento domingo, eles se reúnem em desespero não tão discreto. Organizam encontros de gente solitária em casas lotadas. A vibe é de dinâmica de grupo para entrevista de emprego sob luz estroboscópica. Divertir-se não faz parte dos planos de ninguém—ainda que muitas jurem com os pés juntinhos que saíram só pra dançar.” (Dinâmica de grupo sob luz estroboscópica)
“Depois, num bar do Leblon, Cha, quase sem voz, vai me dizer que não entende o Brasil. Eu vou responder com banalidades e, enfim, confessar que tampouco entendo como uma mulher tão bonita pode ter tanta solidão dentro de si. De madrugada, entre uma recaída de caipirinhas, ela vai dizer que não é nada disso, que não é solidão, e sim algo que perdeu: ´eu perdi alguma coisa dentro de mim há muito tempo e essa coisa é o que eu tento cantar´.
(…) a noite terminará entre goles de suco de maçã com abacaxi na outra esquina. Quando amanhecer, Chan Marshall vai cair de sono com a vista domar entrando pelas cortinas abertas, de calcinha, camiseta e pés descalços para fora da cama, muito bem acompanhada e só”. (Cat Power perdeu alguma coisa)
“Deu até no Guardian, jornal britânico: a Help, boate e legendário ponto de prostituição em Copacabana, funcionária até o dia 28 de agosto de 2009, uma sexta-feira. Na noite anterior, estive lá. Do porteiro à moça da chapelaria, passando pelo gerente, ninguém quis dar desconto na entrada (R$ 40, depois da hora zero de Copacabana) e muito menos falar sobre o fim.
Perícia judicial? Valor de desapropriação? Projeto do novo Museu da Imagem e do Som? Última noite? ´Não sei de nada sobre isso, não´, repetiam com ar de enfado (…)
Antes que eu vá embora, uma delas, vestida de Lycra e cabelo alisado com chocolate, me pergunta: ´O museu vai ser bonito, eu sei. Mas o que é que vai ter lá dentro? Vai ser mais bonito do que eu?´” (Get Helpless)
“Preocupar-se com a opinião que você terá sobre si mesmo no futuro é o tipo de antecipação inútil que os seres humanos começam a ter com trinta anos.
Nos últimos anos da minha já saudosa década perdida de vinte, passei metade dos meus dias fora do Rio de Janeiro. Isso me fez entender com lucidez os motivos pelos quais eu amo (e também odeio) a cidade onde nasci. Com três décadas nas costas, você sabe qual é a janela de onde você enxerga o mundo (…)
Aos trinta anos, você sente essa compulsão estúpida para fazer contas: quantos ossos quebrados, quantas linhas publicadas, quantos endereços, quantos pra sempre. E, assim, cede à tentação estéril de buscar algum sentido ou colocar as coisas em perspectiva, ilusão típica de seres humanos que completam trinta anos.” (O homem de trinta anos)
“…Nunca mais furar a fila da Matriz, nunca mais ter o nome na porta, nunca mais a ´lista´, nunca mais fazer fila e decidir que a fila está melhor do que a Casa da Mariz. Nunca mais assistir a um show de rock no primeiro andar da Casa da Matriz, nunca mais tocar na Casa da Matriz. Nunca mais distribuir um flyer na Casa da Matriz, nunca mais receber uma filipeta da Casa da Matriz, nunca mais qual-é-a-boa-de-hoje-na-Matriz? (…) Nunca mais a Casa da Matriz é a melhor boate do Rio, nunca mais eu não aguento mais a Casa da Matriz (…) Nunca mais um encontro às escuras, nunca mais baixaria, nunca mais nenhuma cena, nunca mais qualquer olhar trocado na Casa da Matriz. Nunca mais o pessoal cochilando no sofá ao lado do aquário do DJ na pista-um da Casa da Matriz, enquanto espera a carona. Nunca mais a pista-dois está melhor do que a pista-um…”(Nunca mais Casa da Matriz)
“E quando não é um pedinte ou uma mulher, são o mundo, os amigos, a folha em branco do jornal: em tudo há a demanda para que se opine sobre qualquer assunto. O que se acha dos travestis do Ronaldo, da sucessão presidencial, do novo clássico da banda da semana, do último filme do Wong Kar-wai, das viúvas magoadas do Glauber, dos detratores desqualificados do Glauber, do Partido da Imprensa Golpista, da passeata dos maconheiros ideológicos, de quem jogou a menina pela janela em São Paulo e do acordo ortográfico entre os países da língua portuguesa (…)
Arrisco uma metaopinião: as opiniões neste início de século parecem cada vez mais radicais—e menos pensadas, como se capricho fossem. O sujeito pensa (reage) com sabe-se lá que partes obscuras do corpo (…) Confunde-se com os próprios gostos. Confunde-se com o time de futebol. Confunde-se com suas posturas político-estéticas.” (Questão de opiniães)
“O Radiohead, melhor do que qualquer cineasta, pintor ou escritor contemporâneo, conseguiu expressar a ressaca do fim do século XX, cujas luzes ainda não se apagaram. Registrou o mal-estar desse século passado que ainda vivemos, tão fartos de informação quanto carentes de sentido, e o transformou em arte. Assim, atua como um dos poucos faróis que apontam para o próximo século, o século XXI, aquele que começou sem ter começado.
Ou que, se já começou, começou apenas num disco do Radiohead.” (Eu não estou aqui, isso não está ‘a acontecendo)
“A artista plástica Regina Silveira trabalha com o paradoxo de sombras que são diferentes dos objetos que as originam. Elas são pintadas na parede com base em uma geometria anamórfica (…) e que acabam por criar um simulacro de simetria. Uma ilusão de que aquela seria a aparência correta da sombra do suposto objeto se (1) ele ali estivesse (2) sob um ponto de luz localizado em determinado lugar.
Como o objeto não está, ou é outro, e o ponto de luz é também falso (a sombra é um decalque fixo na parede), estamos o tempo todo diante de enganos (…)
Peço ajuda ao filósofo esloveno da moda, Slavoj Zizek, de quem outro dia li uma frase que dizia algo parecido com ´se os olhos são a janela da alma, o que seriam os olhos se não houvesse alma?´
Os olhos são os que veem. E as sombras que criamos para nós mesmos são como as de Regina Silveira: independem de um correspondente real. Melhor dizendo, elas são, em si, a nossa realidade imperfeita e nada empírica. Um mundo de sombra desgarradas.” (Um mundo de sombras)
“Sem aviso, as cadeiras começam a aparecer sobre as mesas, despidas das toalhas. Água com detergente corre pelo chão, enquanto se toma a primeira saideira, e é hora da conta que sempre sobra na divisão entre os que ficaram. Com os sapatos molhados talvez dê tempo de tomar uma última em pé, ali na praça, antes de partir ao Diagonal ou a qualquer outro lugar que ainda esteja aberto, de casas de açaí a podrões de cachorro-quente.
E isso tudo, do início ao fim do Baixo Gávea, tem um único propósito secreto. Todas aquelas mentes bronzeadas guardam por trás dos olhos, palavras e ações nos seus palcos imaginários um único pensamento.
A certeza insofismável de que, depois do Baixo Gávea, todos iremos dormir sozinhos.” (Depois do Baixo Gávea)
[1] Um trecho:
“Saímos pelo faubourg assoviando e mordendo tomates, elegantemente trajados com calças retas de bainha perfeita sobre os sapatos bicudos. Tomás veste um terno claro como o de um garçom mediterrâneo, em contraste com o meu traje escuro. Depois de duas esquinas e um pontilhão, meu amigo começa a sentir-se confortável dentro da nova roupa, ao mesmo tempo que percebe novos olhares direcionados a si, cumprimentos mudos, uma certa reverência vinda de distintos jovens e velhos senhores de chapéu, como se o uso do traje desse ingresse a uma silenciosa e elegante confraria. Esses homens se encarariam confiantes, imaginando os cargos uns dos outros em suas respectivas corporações, a procedência dos tecidos, a qualidade dos sapatos e seus preços. Tomás Anselmo, que, até então, jamais poderia imaginar a existência da maçonaria secreta dos ternos, se divide entre exibir um traço de vaidade nos lábios e, no momento seguinte, achar tudo bastante constrangedor.
__ Dom Pedrones, hoje não é carnaval…
__ Olha que maravilha. Estamos os dois chapados, embonecados como duas vedetes do rádio e ainda não são duas da tarde!
__ Nisso você tem razão.
__ Vamos comemorar!—dou um pulo com as mãos espalmadas nas costas do amigo.
__ Comemorar o quê?
__ Não importa—é como sempre respondo às inconveniências de Tomás…”
Ele começa uma coisa, poderíamos dizer até que vitelonesca, à Fellini, e depois oscila entre uma coisa Ricardo Piglia e uma coisa João Gilberto Noll.











