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Jul20

Maria do Rosário Pedreira

Quando se trata de um autor de quem já li muitos livros, às tantas, ao olhar para um título ou uma capa, já não consigo recordar bem a história e até me acontece confundi-la com outra. Um dia destes, no jardim da Gulbenkian, encontrámos um amigo que trazia o Escritor Fantasma, de Roth, debaixo do braço. Fiquei a pensar se já o tinha lido quando o Manel me assegurou que o tínhamos lido ambos e que se tratava da história de um jovem escritor que vai visitar o grande escritor que admira para... (não, não conto mais, sosseguem). Bastou isto para eu ver logo a cena inicial e me lembrar de comboios e mantas e discussões e lágrimas. Lembrei-me então também de uma história parecida com a escrita por Roth, mas real, de um autor mais novo que conheceu finalmente o seu grande ídolo, visitando-o uns meses antes de ele morrer e a quem, no Natal que se seguiu a essa visita, escreveu uma carta muito bonita a agradecer ao mestre a simpatia ao tê-lo recebido e a desejar-lhe festas felizes e um bom ano novo. Estranhou que este nunca lhe respondesse, porque tinham trocado correspondência antes da visita e o velho escritor era educadíssimo; mas pouco depois foi surpreendido com a notícia da sua morte e percebeu que o seu estado de saúde o deveria ter impedido de o fazer. Pois bem, o escritor mais velho não tinha herdeiros e legou todo o seu espólio a uma entidade pública (biblioteca, arquivo, não recordo bem) que terá contratado alguém para o classificar. Foi uns meses depois que o escritor mais novo, vejam lá, recebeu uma proposta anónima para comprar a própria carta que escrevera ao ídolo! O bandido não teve sorte nenhuma (o jovem escritor fez-lhe um manguito e não comprou a carta; e, dois anos mais tarde, a entidade pública acabou por devolver-lha, pois ainda se encontrava fechada). Mas, enfim, é uma história que ensina que gente sem escrúpulos há-a em todo o lado, mesmo no meio bonito da literatura.

Leiam, claro, O Escritor Fantasma, de Philip Roth. É o que vos recomendo para hoje.