Vencedora do Nobel, Annie Ernaux dá continuidade ao seu projeto literário autobiográfico com ‘O jovem’
literatura francesa, autobiografia, diferença de idade, memória, feminismo, filosofia
O convite à reflexão é marca na obra da laureada francesa, que explora sua própria biografia como fonte artística e literária. Por Clarissa Oliveira Através de uma literatura paradoxal, que encontra na linguagem breve e sucinta a expressão de uma profusão de experiências sentimentais e temáticas diversas, a vencedora do Nobel de Literatura de 2022 estreia no Brasil seu romance O Jovem pela Fósforo Editora. Ao narrar a trajetória romântica de um casal alvo de olhares censuradores por parte da França do final do século XX, Annie Ernaux traz à tona o encontro de gerações, acompanhado de imersões reflexivas que permeiam a autobiografia. A autora resgata os episódios de sua vida pessoal e os transforma em literatura, de modo a incluir nos relatos cotidianos altas doses de filosofia. O relacionamento entre a narradora e seu par romântico, referido como A. durante toda a obra e cuja personalidade pueril garante à amante uma espécie de digressão à própria juventude, é palco para a abordagem de questões variadas. O título sugestivo já adianta ao leitor a diferença de idade entre os amantes: cerca de trinta anos e uma miríade de vivências e histórias os separam. As imagens que remontam à faculdade de Letras, os hábitos e costumes de A. inerentes à juventude, os olhares cravados tanto na menina de outrora quanto na mulher madura: o relacionamento com o rapaz constrói, além de um passado duplicado e revivido, um “estranho e contínuo palimpsesto”. Enquanto vê-se repreendida silenciosamente pelos olhares demorados de terceiros, a voz feminina relata uma “espécie de semiconsciência” que lhe permite retornar aos seus vinte anos através das experiências, sobretudo as banais, vividas com A. O recuo temporal, entretanto, não se restringe somente à idade: antes, também diz respeito à origem social da narradora, que encontra no amante mais novo as memórias até então pouco acessadas de sua classe original. A temporalidade manifesta-se curiosamente nas páginas d’O Jovem na medida em que a narradora revive e recria alguns ângulos de seu passado, porém resgata a realidade implacável do transcorrer dos anos através das menções recorrentes a fatos históricos. Ao passo que as referências históricas mais distantes presenciadas pelo rapaz datam da década de 70, a narradora relembra as memórias da Segunda Guerra e do Governo Provisório da República Francesa, irrompendo em divagações melancólicas sobre “a espessura de tempo” que a separa do amante. A repetição das fases de uma vida torna-se inevitável para a personagem que, além de reviver os cenários de sua juventude, também recupera em sua maternidade de outrora traços agora retomados em seu relacionamento amoroso. Porém, através da posição dominante que exerce na relação, tão pouco familiar às figuras femininas, a narradora experimenta uma situação destoante do que vivera até então: agora, o papel assumido é de uma espécie de iniciadora que apresenta o mundo ao rapaz mais jovem. Do mesmo modo, ao promovê-la, a narradora também desfruta de uma espécie de experiência iniciática, que, após interpretada como concluída, desdobra-se no rompimento entre o casal. Annie Ernaux compara o fim da relação ao aborto realizado aos seus 23 anos, além de incluir na narrativa outros diversos temas polêmicos que desafiam os motes predominantemente masculinos dos quais dispõe a tradição literária francesa. O orgasmo feminino, a relação com um rapaz mais novo, a sexualização da mulher e a consequente revolta da narradora permeiam as breves páginas de Ernaux, entretanto, não as reduz a uma mera subversão. Encarregado à linguagem acessível e às frases diretas que compõem a prosa memorialista d’O Jovem, o convite à reflexão feito ao leitor é marca na obra da laureada francesa, que explora sua própria biografia como fonte artística e literária. Imagem: Leonardo Cendamo
Texto originalmente publicado em Revista Fina