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OS RESTOS DO HERÓI NORTE-AMERICANO
(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de janeiro de 2004)
Entrar em automóveis alheios não dá muito certo para Dave Boyle, em Mystic River (Sobre Meninos e Lobos na tradução de Luciano Vieira Machado): na primeira vez, aos onze anos, é enganado por dois homens que se passam por policiais e violentado durante quatro dias num porão; vinte e cinco anos mais tarde, é levado como o mais provável suspeito do assassinato de Katie Marcus, filha de um velho amigo, Jimmy (que estava com ele no momento em que foi raptado pelos dois pedófilos);por fim, entra no carro de Val Savage, cunhado de Jimmy, que o leva para uma espelunca à beira do Mystic River do título original, onde ele e Jimmy vão confrontar seus destinos.
Dave é o bode expiatorio do romance de Dennis Lehane (publicado em 2001): o tempo todoele lembra aos outroa realidades recalcadas que incomodam e fazem com que ele seja sempre prejudicado ou machucado. O título nacional pretensiosíssimo (já o original, que tem a ver com o clímax da narrativa,evoca ironicamente todos aqueles faroestes com rio no título, Rio Vermelho, Rio Lobo, Rio Bravo, por exemplo, que exaltavam a lealdade e camaradagem masculinas) também parece fazer dele o personagem mais importante da trama, quando na verdade o centro é Jimmy Marcus.
A própria eliminação de Dave Boyle e a impotência do terceiro vértice do livro, o policial Sean Devine (o qual também estava presente ao rapto na infância), em impediruma tragédia anunciada desde que eles tinham onze anos, configuram o grande objetivo de Mystic River: revelar Jimmy como um gângster, uma espécie de chefão implícito no seu bairro (na periferia de Boston), que está sendo avassalado pela especulação imobiliária.
Desde que Katie é morta insinuam-se elementos esquisitos na vida do pacato cidadão Jimmy Marcus, dono de uma loja de conveniência: sua atual esposa, Annabeth (madrasta de Katie) tem vários irmãos que são criminosos conhecidíssimos no bairro, a própria filha assassinada tinha sido namorada de um gangsterzinho, que não se conforma com o fim do relacionamento, mas que sendo considerado perigoso, curiosamente não toma nenhuma atitude mais radical, além de pressioná-la (saberemos por que depois).
Avançando na trama, sabemos que Jimmy foi chefe de uma quadrilha até ser preso e só resolveu assumir a máscara de cidadão honesto ao sair da prisão e se deparar com uma filha de cinco anos, órfã de mãe; ainda sabemos que ele matou (sem que ninguém descobrisse) o pai de Brandon, o rapaz com quem a filha pretendia fugir para viver em Las Vegas (o que tornará mais contundente o desfecho; aliás, a solução do crime é arrepiante).
Além de Annabeth, outra personagem feminina marca o romance: Celeste Boyle, a esposa de Dave, que tem um comportamento bizarro e impressionante. Primeiro, ela ajuda destemidamente o marido a se livrar de todos os vestígios de um crime (ele chega ensanguentado em casa na mesma noite em que assassinam Katie); ao começar a desconfiar que ele é o assassino, Celeste muda radicalmente e sua participação é decisiva no desenlace, ao trair o marido (e sua delação ganha um cunho quase sexual, como se fosse um adultério), de uma forma impensável para uma mulher como Annabeth.
Mystic River demora a deslanchar: o início é bem arratado. Dennis Lehane satura seu texto com um preciosismo excessivo para aqueles personagens e aquelas situações e até escorrega no estilo: “Celeste leu em seu olhar a dor mais sincera, mais terna. Pareceu-lhe que um fragmento em forma de lágrima se desprendia do coração de Jimmy e lhe caía dentro do peito”!!!??
Quando deslancha, porém, e começa a mexer a fundo na má consciência norte-americana, que envolve coisas como pedofilia, violência ffamiliar e o problema do fracasso,vamos mergulhando num romance cada vez mais poderoso, um investigação forte do que restou do herói norte-americano, ou simplesmente do Homem americano. Não é à toa que, perto do momento decisivo do romance, Dave comenta a dificuldade de se sentir adulto: “Eu sempre achei que iria ser diferente… na maior parte do tempo não me sinto diferente do que era aos 18 anos. Muitas vezes acordo pensando. Eu tenho um filho? Eu tenho uma mulher? Como aconteceu isso? (…) Ele sentia necessidade de explicar-se. Para que Val entendesse quem ele era e gostasse dele.”
Lembrando heróis de seriado, ele diz: “Eles eram homens. O tempo todo… homens que nunca questionavam a justeza de suas próprias ações, que não se deixavam perturbar pelo mundo nem pelo papel que esperavam deles. Era o medo, pensou ele… O medo se instalara em Dave e nunca mais se fora, por isso ele tinha medo de se enganar, de se embananar, de não ser inteligente, de não ser um bom marido, nem um bom pai e de não ser um homem de verdade”.
A ironia é que o homem ue consegue tudo o que o fraco Dave não conseguiu acaba por ser um monstro moral e o patriarca de uma família criminosa.
nota para o blog- A meu ver, a adaptação de Clint Eastwood resultou num de seus filmes mais mal resolvidos: ele pesa na mão na direção, o elenco está muito irregular (em especial Sean Penn, a quem ele deixa exagerar à vontade), e Kevin Bacon e Laura Linney se sobressaem pela discrição e eficiência. Ao fim e ao cabo, tudo fica melodramático demais.



