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“Você não vai conseguir sair daqui. Agora é um dos nossos”
“… algum dia, xerife, e ele não está muito longe, a experiência humana estará de tal modo submetida aos tratamentos medicamentosos que nada mais terá de experiência humana” (Dennis Lehane, Shutter Island)
(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de março de 2010)
Há um aspecto que me fascina em Shutter Island, o livro de Dennis Lehane e o filme de Martin Scorsese (nunca acertaram no Brasil com o título, seja o anterior ao filme, Paciente 67, quanto o atual por causa da versão cinematográfica, A ilha do medo) e que tem a ver com a minha geração específica: assim como eu, Lehane (mais velho dois anos) está com quarenta e tantos anos e cresceu até certo ponto longe das manifestações da contracultura, atrelado a um bairro e a um estilo de vida. Nossa geração ainda pegou muito da paranóia e loucura anti-comunista, de receio do domínio do mundo (principalmente via controle da mente) ou da sua destruição, e nós crescemos vendo episódios cheios da mais pura paranóia, de séries como Além da Imaginação, Galeria do Terror e congêneres, sem falar nos filmes B ou mesmo filmes precocemente assistidos (para mim, durante muito tempo instituição psiquiátrica significou Elizabeth Taylor sendo acossada por loucos e ameaçada de lobotomia, em De repente, no último verão, e não estou muito certo de que me “curei” totalmente dessa imagem). Hoje em dia, revendo uma série como Invaders, no canal TCM, ou outras da mesma época, e lendo o romance de Lehane, posso fechar os olhos e remontar a um imaginário muito específico de sinistro e terror, que é algo à parte do terror à Poe, ou do terror moderno, auto-referencial. Eu nunca li nada a respeito, nem sei se estou na pista certa, mas para mim Lehane imaginou a história de Shutter Island a partir desse ponto-de-vista da nossa geração, como um exorcismo da nossa educação sentimental paranóica.
Nem por isso dá para dizer que o livro é bom. Nele, deixa de lado sua paisagem habitual, os subúrbios de Boston, cenário de Sobre meninos e lobos e das aventuras da dupla de detetives Patrick Kenzie e Angie Gennaro (Gone, baby,gone, por exemplo) para contar uma fantasia gótica ambientada nessa década paranóica e doentia que foram os anos 50, nos EUA, com as feridas da guerra ainda recentes, a obsessão pela ameaça comunista, a certeza de um “modo de vida americano” que precisa ser “preservado a qualquer custo”, e a ilusão de que certos horrores não poderiam acontecer em solo americano (como experiências de lavagem cerebral, controle da mente, programação do indivíduo), embora acontecessem. Aliás, esse era um dos meus maiores medos na infância e pré-adolescência: ser trancado num lugar onde dominassem a minha mente, me transformassem num ser autômato, desprovido da minha humanidade. Como se o nosso dia a dia não se encarregasse disso, sem tanto melodrama! E como se o modo a ser preservado a todo custo não fosse justamente um modo desumano e injusto.
Na trama (uma história do seu Zé, quase risível), o agente federal Teddy Daniels e um parceiro, Chuck Aule (com o qual ele trava conhecimento apenas no momento da missão) chegam a uma instituição na inóspita Ilha Shutter, ao mesmo tempo presídio e manicômio para pacientes perigosos. Um deles, Rachel Solando, que afogara os três filhos, desapareceu. Há algo sinistro na atmosfera, além da loucura dos internados: uma batalha entre correntes de tratamento psiquiátrico (a prática da lobotomia ainda era comum), a suspeita de que um paciente (o qual assassinara a esposa de Teddy) é mantido escondido dos registros oficiais, e conforme a narrativa prossegue (principalmente depois do desaparecimento de Chuck), a de que tudo é uma farsa, uma armadilha para o agente Daniels, uma forma de aprisioná-lo na ilha, e fazer com que o mundo lá fora acredite que ficou insano, de molde a abafar futuras investigações. Tendo bebido, comido e fumado coisas da ilha, ele acredita que foi drogado e começa a ter sonhos e alucinações horríveis, em que sua mulher morta e Rachel Solando intercambiam-se… Aliás, Teddy encontra Rachel Solando numa caverna, e se o leitor não perceber aí , se é que não percebeu antes, a solução do mistério, sei não… Só daria para acreditar nessa aparição da personagem se ela fosse da ilha de Lost.
No final, não seria Teddy mesmo o paciente 67 que nunca chega a encontrar? Não quero revelar muito da história, mas isso atrapalha um pouco para ressaltar os defeitos e obviedades de Shutter Island. Só digo que o livro começa com um trauma de infância da personagem, ligado à imensidão do mar, quando sai para pescar com o pai, e depois os clichês vão se transformando numa onda gigantesca, que destrói até mesmo as observações mais perspicazes e o lado mais anti-institucional do livro (a discussão sobre os métodos de tratamento psiquiátrico).
Ao contrário dos seus outros romances,sempre muito interessantes e intensos, onde o brilho da ambientação, a atmosfera dos bairros, das ruas, bares e relações familiares e entre vizinhos, ora disfarçava uma trama tênue e inconvincente (como a de Gone, baby, gone), ora reforçava uma trama poderosa e complexa (como a de Sobre meninos e lobos), esse livro de Lehane tem contra si uma atmosfera toda falsa, a começar pelo seu cenário, que parece tirado de filmes B e de seriados como Além da Imaginação ou Galeria do Terror, e piorado pelos clichês que se acumulam vertiginosamente, até a solução mais que batida . Tudo soa como um roteiro de terceira categoria. Para se ter uma idéia, ao relembrar da guerra, Teddy lembra de um soldado dizendo a ele: “Você sabe onde foi parar o resto de mim?” Se vocês tiverem a impressão de já ter ouvido essa frase, é porque já a ouviram na boca do Ronald Reagan de Kings Row- Em cada coração um pecado, ou nas inúmeras citações e paródias dessa cena. Todas as 300 e poucas páginas de A ilha do medo dão essa mesma impressão.
E todos os defeitos foram reforçados na adaptação de Scorsese. Acho que se fosse um filme B dos anos 50 e 60 (e ele se esforça por criar essa atmosfera no início, pelos enquadramentos dos atores no barco), tudo bem, algo como o Cabo do Medo original de J. Lee Thompson (que ele estragou na refilmagem), mas um diretor da categoria e com a experiência de Scorsese fazer cenas de pesadelo e alucinação com truques tão baratos, que fizeram o público da sessão na qual eu estava rir à beça, como a menina morta deitada, o personagem se aproximando dela, a câmera focalizando-a e, pum, ela abre os olhos: “Por que você não me salvou?” O problema é que é uma imitação de um filme B, e tudo muito premeditado, intelectualizado e “fake”. O roteiro, por sua vez, se manteve bem fiel, e falha justamente quando deveria manter essa fidelidade: eles cortaram toda a parte (que é a que tem mais suspense e emoção) em que Teddy tenta sair da ilha, escondendo-se no ferry boat, e o diretor não permite que ele parta sem que o agente federal seja encontrado (e por isso Teddy volta, explode o carro do médico-chefe e vai até o farol, onde encontra as explicações…).
Nem por isso, o filme deixa de ter qualidades: a principal delas é o belo desempenho de Leonardo di Caprio (como sou chatinho, vou dizer que às vezes, mas só às vezes, principalmente na sequência em que relembra como a mulher foi morta de fato, ele exagera um pouco), muito bem secundado por Mark Ruffalo, Ben Kingsley e o indestrutível Max Von Sydow. Quanto a Patricia Clarkson, sobreviver a uma cena ridícula como o diálogo da caverna, mostra como ela é boa atriz. A coitada da Michelle Williams não tem o que fazer no filme (ser um fantasma não é fácil, já vimos em Lovely Bones). O que não se sustenta mesmo é a história, como no livro.
Melhor para nós que Lehane volte para a periferia de Boston e seus crimes pequenos e sórdidos.




