25
Out24
Maria do Rosário Pedreira
Li no The Guardian um interessante artigo sobre o escritor Hanif Kureishi (dramaturgo, romancista e guionista, vencedor há uns anos do Oscar para melhor argumento adaptado com A Minha Bela Lavandaria) que acaba de publicar em Inglaterra um livro chamado Shattered, sobre a desgraça que lhe aconteceu há cerca de dois anos. Num momento particularmente bom da sua vida, com os filhos criados e apaixonado pela mulher italiana, com dinheiro e a viver meio ano em Inglaterra, meio ano em Itália, estava a ver um jogo de futebol no iPad e a beber uma cervejinha quando teve uma tontura. Levantou-se, deu uns passos e desmaiou. Só que caiu sobre o pescoço e ficou paralítico de um momento para o outro. Nunca mais voltou a andar (diz que nunca mais saiu do rés-do-chão da casa onde mora, de três pisos). Esteve um ano a ser tratado em hospitais junto de outros a quem uma queda no jardim ou um tropeção nas escadas do sótão deixou paraplégios ou tetraplégicos. Kureishi gastou rios de dinheiro em fisioterapia e reabilitação, mas, embora consiga mover as pernas e os braços, não consegue ainda agarrar nada com as mãos. Escrever parecia por isso fora de questão, mas o seu cérebro não está parado e portanto resolveu ditar o livro à mulher, com quem gritava por não ser tão rápida a escrever como ele gostaria (sabe-se que sempre foi um tipo um bocado bruto). Diz-se que o livro é bastante escatológico, mas também um tributo a Camilla e a todos os que estiveram próximos nas alturas piores e não o deixaram desistir. Não consigo imaginar a força necessária para escrever um livro nestas condições. Tiro-lhe por isso o chapéu e presto-lhe homenagem. O artigo/entrevista, de Simon Hattenstone, pode ser lido aqui: