Em um trabalho publicado na Animal Behaviour (http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0003347212003569), leio que uma espécie de pássaros, os western scrub-jays (não possui nome em Português), realizam um rápido ritual de luto assim que enc0ntram um de seus companheiros mortos. Tão logo enxergam o cadáver no chão, quem o descobriu pára o que está fazendo e emite um estridente chamado para outros pássaros da espécie que estejam passando. Estes imediatamente se concentram ao lado do cadáver e também emitem trinados, chamando o máximo de western scrub-jays nas proximidades para cercar o companheiro morto.

Os biólogos acham que tal fato ocorre por uma questão de sobrevivência: os pássaros avisariam seus companheiros de que existe um predador próximo capaz de matá-los, e a visão do corpo estendido proporcionaria um melhor conhecimento de como este predador ataca, em uma espécie de CSI animal. Com tal atitude, eles estariam trocando informações e aprendendo mais sobre os perigos próximos.

No entanto, os biólogos não explicaram se os pássaros mudam o seu comportamento depois deste ritual de luto, se eles passam a adotar atitudes mais defensivas ou se acabam se afastando da área em perigo. Notaram que os western crub-jays parecem comer menos e não apresentam tanta disposição para procurar alimentos, mas não é um resultado conclusivo, pois seria confirmar que estes diminutos pássaros se sentiram tão mal na presença da morte que o seu apetite foi afetado.

Western crub-jay: pequenos e sensíveis.

Eu vou discordar dos biólogos. Tenho minhas divergências com a ciência e, apesar de ser uma pessoa racional, não posso acreditar que 2 mais 2 levem necessariamente à 4. Existe um longo intervalo de dúvidas no espaço em que se situa o “mais” e existem mais coisas do que posso imaginar dentro de uma suposição lógica (inclusive a própria ilogicidade – como podemos ser convictos de qualquer assunto quando existem tantas dúvidas a nos rondar, tantas incertezas, tantas possibilidades?).

Eu acredito que, quando os pássaros chamam os companheiros próximos para junto do cadáver do seu semelhante, eles estão alertando-os sobre a existência insidiosa da morte. Dentro de cada corpo, mora a sua própria extinção, esperando o momento em que irá se expor para o mundo. E, por serem capazes de voar, os pássaros às vezes se esquecem de que não são imortais. Vendo o que acontece com o outro, os western crub-jays tomam consciência da sua mortalidade – e espalham esta informação aos quatro ventos.

Memento mori. Lembrando da própria mortalidade, os pássaros recordam o que seria viver. Recordam da importância de encontrar os semelhantes, recordam do conforto que é não estar sozinho no mundo. A lógica da Biologia indica que esta reunião em torno de um cadáver possui alguma função prática, evolutiva – e existe maior função para viver do que lembrar do não-vivo?

Tendo em mente este mosaico de pássaros a se chamarem para lembrar da morte, recordo de um poema que marcou a minha visão de mundo. É “Tecendo a manhã”, de João Cabral de Melo Neto, presente no livro “A Educação pela pedra”. Vamos a ele:

Tecendo a manhã

1
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.


2
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

A manhã só existe por causa dos galos. Se não fossem eles tecerem esta rede invisível de cantares, o sol jamais surgiria. A vida na Terra depende do canto dos galos. Eles acreditam piamente nisto e, graças ao João Cabral de Melo Neto que removeu minhas ilusões, eu também acredito.

Sei que a ciência indica que o nascer do sol está vinculado ao Universo, mas quem pode garantir que os galos não fazem parte deste movimento? Além disso, a realidade não importa, e sim o que acreditamos ser realidade. Por este motivo, o poema do João Cabral de Melo Neto marcou tanto a minha vida: ele me mostrou que a verdade e a certeza são meras questões de ângulo. E que os western crub-jays podem estar (re)descobrindo a própria mortalidade quando confrontados com o fim da vida do seu igual. “Sim, um dia iremos morrer”, eles devem pensar, “não somos tão eternos quanto imaginamos”.

A (quase) insustentabilidade do peso de trazer o sol à vida todas as manhãs. (Imagem retirada do blog Pescando letras, www.http://pescandoletras.blogspot.com.br)

Os western crub-jays precisam avisar seus semelhantes de que a morte existe e está sempre à espreita. O canto precisa se espalhar pelo mundo, e alguns deles precisam ver a morte para acreditarem que tudo acaba.

Basta estar vivo para que as engrenagens invisíveis que conduzem ao fim sejam acionadas. Os biólogos procuram explicações racionais das atitudes tomadas pelos pequenos pássaros diante da morte, mas deveriam estar se perguntando mesmo por que os homens não cansam de ver notícias de mortes sem realizar a mesma reflexão. Talvez os western crub-jays estejam chorando pelas espécies que se acham imortais.

Talvez estejam lamentando por nós e pelos nossos delírios de imortalidade.

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Publicado por Gustavo

Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo