Ivan Turguêniev escreveu tratado sobre primeiro amor
Literatura Russa, Romance de formação, Análise literária, Adaptações cinematográficas, Primeiro amor
imagem/reprodução IMDB Turguêniev muda o tom e volve ao despertar da adolescência com toda sua ternura e despreocupação Matheus Lopes Quirino São muitos os romancistas russos que trataram do romance de formação. Deles, Tolstói se mantém em voga com o estrondoso sucesso de Guerra e Paz, que foi rodado no cinema como um dos filmes essenciais do século XX. Também é extensa a lista de filmagens de grandes clássicos, indo de Dostoiévski a Turguêniev, tendo este último escrito um tratado sobre o primeiro amor, adaptado para as telonas em 1970, pelo diretor austríaco Maximilian Schell.Embora a película com Audrey Hepburn e Henry Fonda (Guerra e Paz), de 1956, continue sendo reprisada, ao passo que o filme de Schell tenha caído no ostracismo, a as reedições do clássico de Turguêniev demonstram que, ao contrário do que se pensa, os livros do autor são chamariz para seus filmes – ao contrário do que hoje se possa pensar. Marcada pela agilidade e efervescência dos movimentos sociais na Rússia, a prosa de Turguêniev é intersectada pelo romance Pais e Filhos, verdadeiro divisor de águas na carreira do escritor. Abastado, Turguêniev herdou do pai uma condição aristocrática, embora seu modo de vida não tenha mitigado uma consciência de percepção da realidade conturbada em que vivia a Rússia na época. Se seus romances como Pais e Filhos e O Rei Lear da Estepe trazem a denúncia do arcabouço comunista e as mazelas sociais no país — sendo esse último uma ode ao livro homônimo de Shakespeare, que tratou da decadência do velho monarca e suas filhas —, já em O Primeiro Amor, embora haja resquícios dessa escrita de denúncia, em especial no começo do romance, Turguêniev muda o tom e volve ao despertar da adolescência e toda sua ternura e despreocupação.O pequeno Valdemar, Vladímir Petróvitch, muda com os pais para o interior, e lá conhece Zinaida, filha da inquilina, uma madame que possuía sim suas credenciais da aristocracia, tendo ela o título nobiliárquico de princesa. Mãe e filha são representantes da condição decadente de uma aristocracia que ia se enfraquecendo, tendo Turguêniev representado o lar das duas como uma lustrosa ruína, com talheres defeituosos, paredes descascadas e empregados já fatigados pelo tempo e pelos já inexistentes luxos, realidade na casa vizinha. Consta-se que a ambientação, embora meticulosa, é detalhe em comparação com a lírica do primeiro amor.Aquele que se considera Otelo, movido pelos ciúmes e pela inconstância do mouro do bardo Shakespeare, o jovem Valdemar está com 16 anos e não demora para frequentar a roda da princesinha Zinaida. Não muito mais velha, embora se orgulhe em falar que está na casa dos vinte anos, arrebanham-se em torno da garota uma rapaziada com moços importantes, de conde a médico, que vão cortejar a bela manceba de cabelos negros. Serelepe e astuta, a garota sabe da influência que exerce sob seus “súditos”, jogo esse, pueril, capaz de provar pequenas disputas, desilusões e idealização.Ao passo que a amizade engrena entre os dois, Turguêniev projeta no protagonista o êxtase e a ansiedade típicos do primeiro amor. Como quando o garoto percebe seu sangue candente como fogo, nas palavras dele, estando pronto para ficar aos pés de sua princesinha. Um conjunto poético de jovens, que recita poemas e conta histórias, então passa a disputar a menina, que os esnoba de forma doce e atraente. Lá eles continuam, sob as ordens da rainha. Influenciado pelo teatro de William Shakespeare e as histórias de cavalaria, o autor constrói um protagonista errante, arquétipo clássico da personagem do romance de formação, como dos contemporâneos Arturo, de Elsa Morante, cruzando o Atlântico para desaguar em Caulfield, de J.D Salinger. Tamanha é a sua palpitação, dispensa comentários quaisquer descrições herméticas, que não a própria prosa fluída de Turguêniev: “Comecei a imaginar que a salvaria das mãos do inimigo, que eu, todo ensanguentado, todo ensanguentado […] morreria a seus pés”. Aos 16 anos, têm-se no amor muitas mortes, outras vidas. Professor irretocável, como diria o poeta Drummond, há também vez em que se renasce, oh, o amor! Para ressurgir em fictícia primavera. Primeiro Amor Ivan Turguêniev 112 páginas Penguin-Companhia 2015 Publicado por Matheus Lopes Quirino Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino
Texto originalmente publicado em Revista Fina