Capa de Os prêmios

Finalmente reeditaram Os prêmios, primeiro romance publicado por Julio Cortázar (hoje sabemos que ele escrevera e engavetara um anterior, O exame final; aliás, toda a sua obra “imatura” vem sendo lançada), ótima introdução ao universo do grande escritor argentino, sem o radicalismo de experiências como Rayuela-O jogo da amarelinha (1963) e 62-Modelo para armar (1968), no quais ele tentou a destruição do gênero e de hábitos de leitura petrificados.

Cortázar reúne pessoas da mais variada extração social, sorteadas numa loteria governamental (há uma atmosfera miasmática de repressão política), reunindo-os num cruzeiro, do qual eles não sabem sequer o itinerário ao embarcar num navio cuja popa lhes é interdita com explicações inconvincentes. Os passageiros dividir-se-ão entre conformados e rebelados.

Portanto, a primeira coisa que se nota em Os prêmios é a utilização insólita e matreira de um velho clichê narrativo: reunir num mesmo espaço, e sob o signo da viagem (no que ela significa de deslocamento e dissolução da rotina), pessoas diferentes, formando uma imagem condensada de uma determinada época ou sociedade. Esse mote pode proporcionar desde best sellers (Aeroporto, por exemplo) até obras de grande qualidade (como Trem de Istambul, de Graham Greene). Ao mesmo tempo, Cortázar explora o lado artificioso e fabricado dessa situação romanesca (a começar pela primeira frase, “A marquesa saiu às cinco horas, o célebre exemplo utilizado por Paul Valéry na sua diatribe contra o romance e sua pretensa “imitação da vida”), acelerando-o ainda mais ao concentrar em três dias a suposta viagem, os quais representam uma abertura para uma outra aferição de tempo, onde as personagens embarcam numa viagem muito diferente.

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Criador de situações exemplares de tensão, que amalgamam o cotidiano e o fantástico (o caso da popa proibida; aliás, já no longo início, no qual todos se reúnem no bar London, antes do embarque), Cortázar também se confirmava nesse livro um grande criador de personagens (e que evolução, sabemos agora, desde a tentativa frustrada de O exame final!). Há o herói existencialista, meio à André Malraux, Medrano, que se tem um breve e intenso caso de amor com a fascinante Cláudia, mãe de um dos mais típicos “cronópios” da obra cortazariana, o menino Jorge, catalisador do clímax da intriga. Há a dupla de amigos irônicos e desesperados, Raul e Paula, esta se interessando por Carlos López, mesmo sabendo que entrará num jogo em que tentará afastá-lo dela tanto quanto deseja aproximá-lo e fazê-lo romper seus velhos hábitos de joguinhos e atmosfera huis clos; aquele, seduzido pelo adolescente Felipe (a quem também seduz), mas que tem de lutar contra a camada de idéias preconcebidas e machistas da sua educação, e principalmente contra o pavor dele com a própria sexualidade. A trama que envolve Raul e Felipe provavelmente é a que fornece as cenas mais intensas de Os prêmios, inclusive pela violência psicológica com que Cortázar a encerra, numa cena cruel (que envolve um dos marinheiros que bloqueiam a passagem para a popa, e numa ambientação que sugere descidas ao inferno e inúmeras referências mitológicas) que deixa Jean Genet no chinelo.

Há também o grupo de suburbanos e o casal Lúcio-Nora, em que a mulher submissa e católica aos poucos vai formulando silenciosamente um julgamento fulminante e deletério do seu homem, que garantem as mais diversas camadas de leitura. A viagem dos premiados pode ter sido truncada e frustrada, mas os que embarcarem nesse belo romance nada terão do que reclamar: Os prêmios vale cada centavo investido na sua travessia.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 25 de novembro de 2006)

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