Flávio Cafiero constrói labirinto do rancor humano em novo livro
literatura brasileira, crítica literária, relacionamentos, centro de São Paulo, redes sociais, comportamento urbano
Centro de SP por Paulo Von Poser/divulgação Romance ‘Diga que não me conhece’ narra o calvário do protagonista recém separado, mas tem pontas soltas Affonso Duprat Eu quero a sorte de um amor tranquilo/com sabor de fruta mordida… Não são os versos mais adequados para a vida de Tato, que há pouco tempo (“vinte e dois dias depois de dar errado”, como repete a esmo) vive em círculos, ainda impactado com a separação de Fabiano. Na casa dos quarenta anos, o capixaba que mora em São Paulo vive a base de remédios, atormentado e perseguido pela imagem do ex, que está curtindo a vida não muito longe dali com “um alemãozinho de boca mole”. O cenário: centro de São Paulo. Com maestria, Cafiero reconstitui uma geografia sentimental do lugar, detalhando os entornos, cheiros, público e as mazelas desse ambiente camaleônico, onde cosmopolitismo e degradação andam juntos. Ponto alto do livro, Cafiero abre o jogo e escancara os joguinhos dos gays chão de taco, que têm plantas em casa, transformam a academia em um book de fotos diariamente e vivem em aplicativos de pegação. Essa atmosfera de um estilo de vida urbano descreve muito bem um padrão em um determinado nicho social. Onde vivem? O que comem? Com quem andam? Cafiero responde a todas essas perguntas na boca do personagem que, com ironia e rancor, escracha o modo de vida de um círculo devidamente fechado que, nas redes sociais, forma uma comunidade de cartas marcadas, com seus cachorrinhos que cheiram um o rabo do outro e tomam leite vegetal vegano. Na cabeça de Fabiano, seu ex está passando o rodo, não repetindo figurinhas. Ele olha para as redes sociais e pensa como é engraçado todos os gays de São Paulo se conhecerem e se seguirem. O romance, que descreve as ruas do centro da cidade, com um Q de Santa Cecília quase Vila Buarque coloca no centro o Concórdia, prédio dos anos 1950, com seus habitantes que vivem em home office, são vizinhos peculiares, com manias e trejeitos artísticos. No entanto, o leitor carece de informações sobre as personagens auxiliares, tão importantes. Mesmo o co-protagonista, Fabiano, que é retratado unicamente pelo ponto de vista do narrador. Um exemplo que entra gratuitamente na história e sai sem explicações é Samu, o vizinho ex-viciado que cheira limão, é ora muleta para o protagonista, ora sobra. Tato está descontrolado. O que é compreensível, dado ao turbilhão de informação que entra pelos ouvidos. Na trama, a forte crítica à vigilância das redes sociais e os males que esse império de imagens solidificou é uma discussão interessante, que renderia mais. Tato indiretamente stakeia seu ex. Por outros! Que vão lhe contar os últimos babados. Não parece natural, mesmo para bons amigos, soltar migalhas de uma separação já muito requentada. Ele acaba sendo um peão da melhor amiga, Sabina, que ta,bém está em um momento solitário, separada extraoficialmente do ex. Ele surta. Dá show. Está no fundo do poço. Desce a lenha nos gays chão de taco, tem uma rotina nociva e enfrenta solidão. Há coerência em tudo isso, embora haja certo exagero, estando a degradação no romance como auxiliar à ruína da personagem. Tudo é degradante, do Locus ao homem. Uma das pontas soltas no romance, aqui vai um spoiler, é a história das bonecas descabeçadas. Uma sub-narrativa que enfraquece o núcleo da tristeza e atrapalha, transformando a fluidez da história em uma via sem saída. Mais um exemplo de gratuidade do que de compreensão. O livro é rápido e fica instigante no meio. Há muitos caminhos que não levam a lugar nenhum. No final o leitor se pergunta: “Por que entrei neste labirinto?”. Diga que não me conhece Flávio Cafiero Todavia 2021
Texto originalmente publicado em Revista Fina