Sempre algo se fecha. Podem ser os prazos… de entrega da matéria, de vencimento da conta, de inscrição no curso, de amar melhor. Sibélia Zanon* A mandaçaia começa o dia com pressa. Em poucas horas, a flor vai fechar. Mergulha nas anteras que chamam, amarelas, feito faróis da satisfação. Gasto tempo olhando. A abelha faz uma dancinha circular tocando os faróis para coletar o pólen e guardar nas patas. Já o néctar… ele não mora nas superfícies. É preciso um mergulho mais profundo, ir ao cerne da flor. Ninguém volta igual depois de um mergulho no cerne das coisas. Mandaçaia volta lambuzada. É como um cutucar constante, um ponteiro cobrando a passagem do dia. Foto: Acervo da autora. Quais são as anteras em que mergulho? Em que tenho me lambuzado? Perguntar não ofende. O desejo por uma rotina com cheiro de ora-pro-nóbis, com gosto e mergulho nas profundidades, não cessa. É como um cutucar constante, um ponteiro cobrando a passagem do dia. Não existe a certeza do néctar. Ainda assim, não vejo abelha ou o beija-flor titubear. Eles vão. Se metem nos vãos possíveis e voltam. A mandaçaia começa o dia com pressa porque a flor fecha. Nós acordamos com pressa porque parece que alguma coisa vai se fechar também. O ponteiro interno cobra o aproveitamento das horas. Sempre algo se fecha. Podem ser os prazos… de entrega da matéria, de vencimento da conta, de inscrição no curso, de amar melhor. O punctum do dia. Mergulhos exigem alguma concentração, alguma entrega, alguma fé no néctar. Foto: Acervo da autora. Mas, entre um prazo e outro, quero prezar o mergulho. Talvez sejam os mergulhos os responsáveis por fazer valer a pena. O aprofundamento em algum elemento que chama, feito antera, feito farol. O punctum do dia. Mergulhos exigem alguma concentração, alguma entrega, alguma fé no néctar. De olhos abertos, pelas anteras que chamam o dia. Sibélia Zanon* é jornalista e escritora, autora de Espiando pela fresta.