Flor do impossível
gastronomia, natureza, comportamento humano, maturação, filosofia do cotidiano
É no cerne ou coração que se exibe a flor. Imatura, ela se parece com espinhos sem cor Sibélia Zanon Vejo a roseta. O botão é fechado por brácteas – pétalas que se fingem escamas. Num ritual de desmembramento, é preciso comer a base carnuda de muitas e muitas pétalas até atingir o centro, onde mora o coração. É no cerne ou coração que se exibe a flor. Imatura, ela se parece com espinhos sem cor. Quando plena, é intumescida em tons magenta. Cada passo pelo caminho gustativo leva ao coração – miolo carnudo e aprazível –, impossibilitando a plenitude da flor. Estamos na época das alcachofras, estas flores do impossível. Comemos o botão na véspera, na antessala da cor, antes que os polinizadores vislumbrem uma aproximação. E, assim, prosseguimos na nossa maratona gastronômica. Queremos o caju doce e suculento, mas colhemos a fruta do pé antes que ela usufrua do sol benfazejo. Aí, o caju amarra a boca, contando histórias de imaturidade. A logística que leva a feira até as gôndolas dos hipermercados grita mais alto do que o ponto de maturação do fruto. Se pensarmos na origem do problema, talvez o histórico das pressas gastronômicas comece mesmo é na primeira infância, quando certos bebês decidem andar antes de engatinhar. Sem as mãos espalmadas no chão, esquecem de aprender a linguagem da terra e de descobrir que todo broto começa bem ali. Sem experienciar o solo e explorar o broto, tudo se apressa e nada se cura. Comemos o mundo, enquanto esperamos as flores. Improvável.
Texto originalmente publicado em Revista Fina