Antes tarde do que amanhã para combinar com seu próximo nhoque

Sibélia Zanon, colunista da Fina

Sim, durante a pandemia pães passaram a unir as pessoas da casa em volta da manteiga, dos fornos e até do tal levain, que em certas famílias foi batizado com nome afetuoso. É verdade que eu não saí da regra, mas não cheguei a batizar o levain. Amor moderado. Tentativa de desapego. 

Mas, em vez de ficar aqui sovando a massa para aliviar tensões, pensei em falar sobre nhoque. Na última vez que falei no prato, descobri que eu ainda não comi nhoque de mandioca, sendo o meu preferido até o momento o de mandioquinha, que aprendi a fazer com uma amiga.

Difícil achar prato que não combine com afeto, talvez também com paciência e com uma pia lotada de louça por ser lavada. E tudo indica que a paciência esteja sendo o grande teste dos últimos tempos. A vantagem é que ela vem em combo com a louça suja e com a possibilidade de ser praticada constantemente.

O nhoque, por exemplo, não é uma omelete. Ele quer ser massa em ponto certo, depois quer ser formatado em pequenas frações, depois cozido em porções dosadas, depois molhado em alguma alquimia, que inclui a manteiga e o azeite, e só depois da saga vai para o prato. Paciência e repetição porque uma bolinha não faz alegria.

O nhoque da escritora Sibélia Zanon (acervo da autora)

Quem recebe um prato de nhoque saído da panela com sálvia amanteigada e parmesão é uma pessoa feliz, pelo menos por alguns instantes. A felicidade não vem mais com selo de eternidade, mas aos bocados.

E os bocados são os mais variados. Há quem consiga senti-los até de boca vazia, como Chimamanda Ngozi Adichie, em Hibisco roxo: “Ele esticou a mão e pegou a minha, e eu senti como se minha boca estivesse cheia de açúcar derretido”.
A maioria, contudo, continua querendo os bocados de felicidade com a boca cheia mesmo e isso acontece desde Platão, quando os banquetes emergiam ao redor da filosofia, durante longos discursos sobre o amor. Lavar louça suja ao redor da mesa, tudo bem. Já a roupa suja não é tão bom. Mario de Andrade não se incomodou com isso e ofereceu sua refeição conturbada para uma família, obrigada a comer o peru de Natal enquanto lutava com o vulto do pai morto. Entre metáforas apimentadas da conquista e ternuras da memória, reavivadas em chás e madeleines, assim se desdobram os bocados que povoam nosso paladar e imaginário. 

Penso em fazer o nhoque e sinto preguiça, penso em vê-lo saindo em cima da espumadeira para fora da água e sinto alegria. Vejo as bolotas todas subindo para a superfície da água, feito nado sincronizado. Às vezes, me entrego aos bocados de felicidade, muitas vezes dou mais crédito à preguiça e vamos revezando entre a labuta e o sofá, mas sempre com a pia cheia de paciência.

Aqui em casa não batizamos o levain e nem o nhoque, mas batizamos um casal de papagaios, que faz todos os dias a mesma rota pelo céu, quando o sol já está quase inteiro escondido atrás do eucalipto: o Zico e a Zita. Eles são bem legais e, às vezes, dão uns gritos para avisar que já estão indo. Um bocado de voo por dia, uma paciência por pia, uma felicidade por nhoque. Para não perder o gosto, para não perder a direção, para alimentar a ternura.

Antes tarde do que amanhã,

para combinar com o seu próximo nhoque, 

segue receita de molho de tomate:

Cede ao corte

Da faca de serra.

Se abre estelar

Polvo do mar.

Quarteto de pernas,

Graúdas e vivas.

Sementes ativas,

Na língua tão ternas.

Vermelho, flutua

No mar de sal.

Molhado no mel,

Desfigura o mal.

Se faz imperdível

Por ser tão carmim.

A pele desgarrada,

Despudorado enfim.

Entrega-se ao doce

Sem perder acidez.

Largado nas massas

Da insensatez.

*É jornalista e escritora.